Resenha: O Sono da Morte (2016)

-Por que você toma todas essas pílulas, Cody?

-Eu não gosto de dormir.

sonodamorte-poster01

Título: O Sono da Morte (“Before I Wake”)

Diretor: Mike Flanagan

Ano: 2016

Pipocas: 5/10

Não há alternativa: para um terror funcionar, você precisa se importar com o protagonista. Seja uma mulher em uma situação desesperadora, ou um homem isolado, ou mesmo um grupo de jovens numa cabana abandonada: se a audiência não se importar, o filme não irá prendê-los até o fim de sua exibição (ou um pouco além). Enquanto grande parte dos filmes de terror atuais normalmente peca pela ausência de identificação de personagens, “O Sono da Morte” vai na direção oposta, enchendo sua história com tantas lágrimas e sessões de terapia expositivas que por vezes o filme parece mais um drama do que um terror.

before-i-wake_1503131747-1-790x494


O filme conta a história de Jessie (Kate Bosworth) e Mark (Thomas Jane) Hobson, um casal que passou por uma enorme perda e que decidiu adotar uma criança para começar uma nova vida. A criança indicada pela assistente social é Cody (Jacob Tremblay, de “O Quarto de Jack” – a nova criança favorita de Hollywood), um garoto tímido e doce que passou por diversas famílias nos últimos anos. Os Hobsons logo descobrem o motivo: quando Cody dorme, seus sonhos se tornam reais. O que começa parecendo uma dádiva divina logo se transforma em horror quando os sonhos do garoto dão lugar a pesadelos cada vez mais mortais.

Uma coisa notável em “O Sono da Morte” é que ele queria muito ser um “A Hora do Pesadelo” dirigido por Guillermo del Toro. Nas primeiras vezes em que Cody sonha e borboletas em neon tomam a sala, o ar fantasioso e místico funciona, tirando os Hobsons e os espectadores daquele espaço puramente urbano por alguns momentos (embora os efeitos não sejam muito primorosos). A maneira como a fantasia logo se envereda para terror remete a um “Labirinto do Fauno” em versão de testes – com menos horror e ousadia. Mesmo o monstro que atormenta Cody é tão mequetrefe que parece ter escapado do set de filmagens da primeira temporada de Doctor Who.

biw1
A próxima observação ocorre quando o filme atinge a marca de uma hora e nada nem levemente aterrorizante aconteceu: o filme foi vendido errado. O título em inglês, “Before I Wake” (“antes de eu acordar”, em tradução livre), faz uma referência a (sinistros) versinhos ditos por crianças gringas antes de dormir, que se traduzem como “se eu morrer antes de acordar, oro a Deus para minha alma levar”. Isso implica ao mesmo tempo a inocência de Cody e o aparente risco de vida que ele corre ao dormir. “O Sono da Morte”, por sua vez, é um título que aponta para uma tensão de morte real – uma direção diferente daquela que o filme segue.

Em outras palavras, como filme de terror “O Sono da Morte” é um ótimo drama.

m-256_rcr

Apesar desta embalagem falsária, há conteúdo no filme. A forma como Jessie inicialmente lida com o dom de Cody é muito interessante, e o segundo ato do filme envereda por um caminho bem mais sombrio, com um potencial fantástico que é descartado em prol de um fim mais convencional. Bosworth entrega uma boa mãe culpada, e suas reações e diálogos são convincentes e efetivos em nos aproximar dela (mesmo quando ela está na terapia que só serve para explicar eventos posteriores do filme). Thomas Jane, já esquecido como “Justiceiro”, também não será lembrado por esse papel. Embora seu personagem seja carismático, ele gravita em torno dos outros, sem muito propósito a não ser personificar a voz da razão masculina, padrão em filmes do gênero.

Jacob Tremblay continua sendo a criança mais adorável do cinema atual, embora aqui, com uma direção mais fraca, não tenha conseguido se sair tão bem quanto em “O Quarto de Jack”.

before-i-wake-616x351
De mensagem que perdura após ver o filme, fica a reflexão quanto às dores da perda; muitos afirmam que esta é a maior dor emocional pela qual um ser humano pode passar. Ao ser exposto à realidade de que algo – ou alguém – amado se foi, as pessoas fogem para onde podem, literal ou figurativamente, para anestesiar a dor, mesmo que temporariamente. Questiona-se, no entanto, até onde estaríamos dispostos a ir para aplacar essa dor – ou mesmo mais do que isso. Se tivéssemos a possibilidade de recuperar o que foi perdido, o quê e quem estaríamos dispostos a sacrificar para conseguir isso de volta?

before-i-wake-2
Embora boa, esta reflexão não é suficiente para salvar o filme. Entre algumas cenas bonitas, atuações suficientes, uma boa sequência de sustos no último ato e um roteiro/direção que não sabe o que quer da vida, “O Sono da Morte” acaba sendo um título propício pelo motivo errado: não veja esse filme se estiver sonolento. Você provavelmente vai dormir.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s