The Fundamentals of Caring (2016)

-A vida é mesmo uma escrota de primeira classe.

-Nem sempre.

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Título: The Fundamentals of Caring

Diretor: Rob Burnett

Ano: 2016

Pipocas: 8/10

Nem sempre a qualidade de algo está na sua inovação. Digo isso com uma pontada no peito; eu, no geral, sou repelido por coisas que sinto que já vi, ouvi ou conheci de alguma forma. Ainda assim, por vezes basta fazer certo para fazer bem, e esse é o caso de “The Fundamentals of Caring” – um filme original Netflix sobre encontrar a si mesmo ao decidir entregar-se.


Na história, Ben (Paul Rudd, o “Homem-Formiga“) está numa crise terrível em todas as áreas de sua vida. Buscando dar um novo norte para si, ele entra em um curso de seis semanas para se tornar cuidador. Seu primeiro trabalho é cuidar de Trevor (Craig Roberts, de “Submarino“), um rapaz de 18 anos com Distrofia Muscular de Duchenne e um senso de humor absurdamente ácido. Juntos, eles buscarão o que lhes falta não um no outro, mas no mundo – o que, claro, os leva a uma viagem de carro pelos Estados Unidos.

The Fundamentals of Caring

Este ponto, de não procurarem asilo de suas dores um no outro, é o principal ponto do filme. Já vimos outros longas com premissas semelhantes – como “Um Amor Para Recordar”, “Os Intocáveis”, “A Culpa É das Estrelas”, “O Lado Bom da Vida“, dentre tantos outros -, e o enfoque normalmente é como um doente, física ou emocionalmente, complementa o outro, e o torna capaz de observar a vida por um outro ângulo, mudando-o completamente. Em “The Fundamentals of Caring” (que não recebeu tradução no Brasil, e em Portugal ficou “Amizades Improváveis”), a amizade entre Benjamin e Trevor é mais um possibilitador de mudanças do que a mudança em si; com um cuidador que o desafia, Trevor passa a dar mais de si, e com um paciente que não o deixa se acomodar, Ben não consegue permanecer em seu marasmo.

Se por este lado o filme inova, quando ele se torna um road movie (um filme de viagem na estrada), “The Fundamentals…” não traz novidade; todas as improbabilidades que você puder imaginar, e que lembra já ter visto em outros filmes, você vai encontrar aqui. Temos Dot (Selena Gomez), a garota rude e autônoma que está pegando carona na estrada, logo se torna um interesse romântico para Trevor. Também temos uma grávida inocente, Peaches (Megan Ferguson), e até um carro que os persegue por toda a viagem por razões escusas. Será este “mais um” fruto do Algoritmo Netflix, agora mirando em filmes indie?

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Ainda assim, o diferencial de “The Fundamentals of Caring” não está nos pontos da sua trama em si, mas no cuidado e qualidade que ela é levada. Desde a trilha sonora leve (que lembra “As Vantagens de Ser Invisível” com um toque country) ao esmero do roteiro, o filme te abraça e em momento algum busca apelar para sua tristeza para te cativar – como 90% dos filmes semelhantes fazem.

O roteiro, inclusive, é o maior ponto de destaque. São muitas pontas que vão sendo deixadas abertas ao longo do filme; coisas que aparentam ser sem valor recebem desfechos satisfatórios, e até surpreendentes, que fazem o filme crescer. Quando isso acontece, o elenco dá conta da entrega de suas cenas com carinho e competência. Rudd e Roberts têm simpatia o suficiente para fazer até situações desconfortáveis serem carismáticas, e Gomez é um golpe de charme e realismo para equilibrar a dupla de patifes sonhadores no banco da frente da van nesta viagem. Com esta combinação, o trio entrega personagens críveis e identificáveis mesmo em um filme tão simples.

Fundamentals of Caring

E talvez seja a simplicidade o maior trunfo aqui: ele não pretende ser mais do que ele é. Ele não quer te fazer chorar, e talvez queira te fazer rir sempre que der (e de fato consegue), mas o principal foco é fazer com que você embarque e viva com aqueles personagens por aqueles dias.

Quando entramos na vida deles, pensamos em todas as improbabilidades que levaram Trevor e Ben até ali. Quais as chances de alguém desenvolver a rara doença de Trevor, que o põe tão debilitado naquela cadeira de rodas? Quais as chances de acontecer um acidente como aquele que destruiu a vida de Ben? Como dito na citação da abertura deste texto, às vezes a vida realmente é uma “escrota de primeira classe”, e não há o que se fazer a respeito; não há razão para o mal acontecer. Ainda assim, Ben responde no filme que “nem sempre”, e é verdade. Da mesma forma que o mal é aleatório, o bem também o é, e muitas vezes ele o é através de nós. Quando Ben e Trevor se deixam ser ferramentas de um pouquinho de bem aleatório no mundo – inclusive no mundo deles mesmos -, o mal não deixa de existir, mas se dirime, mesmo que temporariamente.

Fundamentals Of Caring

E estes são os “Fundamentos de Cuidar/Se Importar”, em tradução livre (e assim entendemos porque o título não foi passado ao português no Brasil). É fundamental importar-se para poder cuidar, tanto quanto o é cuidar de fato.

Talvez você, como eu, não possa mudar o mundo hoje. Talvez nunca possa. Ainda assim, sempre há oportunidades de mudar o seu mundo, ou de quem está do seu lado agora no trabalho, na escola, ou em casa, e é muito simples, na verdade.

Comece se importando.


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