Entrevista com o Vampiro (1994)

“Beba meu sangue e viva para sempre.”

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Título: Entrevista com o Vampiro (“Interview with the Vampire)

Diretor: Neil Jordan

Ano: 1994

Pipocas: 9/10

Em 1994, Brad Pitt e Tom Cruise puseram suas presas de fora com o lançamento do filme Entrevista com o Vampiro (Interview with the Vampire), ganhando merecida aclamação de crítica e público.  A história começa com Louis (Brad Pitt) se apresentando como vampiro para um repórter (Christian Slater) que se propõe a ouvir e retratar sua história de vida, desde a trágica perda de sua esposa no final do século XVIII, até transformar-se num vampiro por opção própria. Uma opção, diga-se de passagem que, Lestat (Tom Cruise), o vampiro que “fez Louis nascer para as trevas”, diz nunca ter tido. Daí em diante, várias venturas e desventuras acontecem na “vida” dos dois, sendo as principais delas a transformação de Claudia (uma Kirsten Dunst de 11 aninhos) em vampira e a eventual abrupta partida de Claudia e Louis para Paris, onde eles conhecem uma associação de vampiros chamada Teatro dos Vampiros, liderada por Armand (Antonio Banderas).

Sendo hoje um filme referência para o “gênero”, a película é baseada  no romance homônimo, que é a primeira parte de uma longa coleção passada no mesmo universo chamada Vampire Chronicles (Crônicas Vampirescas no Brasil), da escritora americana Anne Rice. Inclusive, é importante lembrar que a autora participou do roteiro e aprovou a adaptação cinematográfica em sua totalidade, o que deve soar como música para o ouvido daqueles que não aceitam que mudem uma vírgula sequer dos seus livros favoritos ao serem transpostos para as telonas.

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É inegável que de Nosferatu (1922) até os tempos de hoje, muita coisa aconteceu com a estética e a mística por trás dos bebedores de sangue, desde serem feios como a peste até ganharem um “brozeado” azulado, desde se desintegrarem ao sol, até virarem purpurina, enfim, o mito é construído, desconstruído e reconstruído com o passar do tempo. Assim, Entrevista com o Vampiro se destaca por manter pés bem fincados na parte mais folclórica da origem desses seres, o caixão, a repulsa ao sol, a necessidade de sangue; dispensando as marcas mais religiosas das lendas, o crucifixo, a estaca, o alho – “delírios de um irlandês”, segundo Louis em referência a Bram Stocker. Além disso, somos apresentados a seres de aparência andrógina, com tendências sexuais diversas, de conversa fácil com um poder de sedução fora do normal, despertando nos outros desejo ou inveja pela sua eterna beleza e juventude, tratadas muitas vezes como uma verdadeira maldição. Talvez aqui a maior contribuição para a forma como ainda enxergamos os vampiros contemporâneos: seres belos, de aparência angelical, atormentados por seus dons malditos por toda a eternidade.

O filme, apesar de mais econômico que os livros ao demonstrar as aventuras íntimas dos seus personagens, não se priva de insinuar um relacionamento homoerótico entre Lestat e Louis, inclusive caminhando para a construção de uma família com dois pais, quando eles “adotam” a jovem Claudia. A situação da menina vampira, por sinal, é bastante problemática, pois transformada ainda criança, num corpo infantil estaria presa para a eternidade. A perspectiva desse conflito é muito interessante, pois, quando Claudia entende que nunca será fisicamente uma mulher em todos os seus atributos, mesmo já tendo vivido por mais de três décadas, uma histeria a ataca, talvez pela inconformidade com o que é considerado normal, ou ainda, pela eterna incapacidade de satisfazer sexualmente a Louis, já que, por fim, há uma incômoda insinuação de romance entre Claudia e Louis, o que podemos considerar uma cereja cor de sangue no topo de um perturbador bolo amorosamente triangular.

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O filme é definitivamente, muito bem escrito e muito bem ambientado, em se tratando de uma narrativa que se passa séculos atrás, temos um meio termo muito interessante na linguagem, tornando ela pomposa o suficiente para a considerarmos clássica, mas compreensível o suficiente para que ela não nos entedie ou seja um empecilho. A ambientação é soberba, com figurinos, cenários e músicas que remontam a toda uma época. Não devemos deixar de elogiar também todas as excelentes atuações, com destaque para Brad Pitt, visto que seu personagem é o mais aprofundado. Ao contrário de Lestat e da grande maioria dos demais vampiros, Louis é atacado por uma consciência moral que o torna relutante ao assassinato e ao sangue humano, além disso, parece que Louis ficaria mais confortável em descobrir que sua espécie é amaldiçoada por Deus, e que o seu propósito no universo é fazer o mal, visto seu tremendo desapontamento quando Armand, considerado o vampiro mais velho vivo, diz fatalmente que a existência do seu tipo não tem um significado especial e que as coisas são o acaso que tem de ser. O vampiro quadricentenário ainda demonstra imenso interesse em Louis por considerar que ele seja o modelo para os vampiros futuros, graças ao fato de carregar consigo o espírito de seu tempo, ou, se preferirem os mais teóricos, os dilemas de Louis, na visão de Armand, traduziriam o zeitgeist do vampiro moderno.

Talvez um único ponto que possa tornar o roteiro um pouco cansativo são as inevitáveis idas e vindas do relacionamento de amor e ódio entre Louis e Lestat, mas, sendo isso parte indelével do desenvolvimento da trama, tenho certeza de que seremos todos capazes de vencer algumas repetições para chegar ao fim desse clássico recente do cinema, absoluto nas listas de filmes de vampiro para a eternidade, se ela existir.


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