PontoXP #08 – Coldplay no Maracanã

Para quem gosta de música – e até para quem não gosta -, shows têm uma atmosfera diferente. Assim como uma pré-estreia em um cinema, tem algo mágico em se estar com diversas pessoas que compartilham um interesse com você, focados naquele mesmo ponto, enfrentando desafios e distâncias para se estar ali. Aquele momento une as pessoas, e quaisquer problemas – tanto nossos quanto da banda – se tornam circunstanciais.

Naquele momento, é você e sua história, você e seus músicos, contra o mundo.

Assim foi o show do Coldplay no Rio de Janeiro, no Estádio do Maracanã.

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O desafio que é tirar fotos pulando.

O Coldplay é amado e odiado na mesma proporção, e pelos mesmos motivos: suas letras variando entre a depressão juvenil, à la Charlie Brown (não à toa o nome de uma música do grupo) e a alegria efusiva gera um movimento bem dividido em relação aos rapazes ingleses. Como já apontei outras vezes, e apontarei de novo no futuro, eu fui iniciado na música através do Coldplay, de forma que ela embalou diversos momentos da minha adolescência e início de juventude. Ainda assim, foi impossível não sentir a queda de qualidade dos últimos álbuns da banda, e me juntar à fileira daqueles que criticam Chris Martin e companhia (ou, atualmente, Chris Martin e Seus Teclados).

Mas ao vivo a coisa muda de figura.

O show foi aberto pela artista nacional Tiê (a qual eu não conhecia, mas tem um som muito agradável), seguida da minha grande descoberta da noite: Lianne La Havas. A cantora de Londres apresentou voz, presença de palco e carisma dignos de uma estrela da música (…inglesa). Mesmo enquanto eu transmitia trechos do show para nossos seguidores no Snapchat, tive que parar alguns momentos para simplesmente admirar a voz da cantora. Após uma hora de apresentação ela se retirou, e às 21h03 as luzes se apagaram.

Às 21h05, o Maracanã se acendeu.

Isso se deu devido às Xylobands, as pulseiras que brilham com cores e ritmos de acordo com a música tocada, introduzida pela banda na turnê do álbum “Mylo Xyloto” (2011). A pulseira – lembrança praticamente compulsória da noite – ajudou a compor alguns dos momentos mais belos da noite, se tornando parte integrante da experiência.

O setlist foi extenso e variado; a viagem por todos os álbuns da banda fizeram jus aos rumores de que a banda acabaria em breve (embora Chris Martin tenha dito que gostaria de voltar ao Brasil logo). O show começou com “A Head Full of Dreams” (do álbum homônimo, 2015), seguida pela querida “Yellow” (de “Parachutes”, 2000), “Every Teardrop is a Waterfall” (do álbum “Mylo Xyloto”), a destruidora de corações “The Scientist” (primeira música que toquei em público, do álbum “A Rush of Blood to the Head”, 2002) e “Birds”, do álbum atual. Essa mistura fez a plateia sempre estar no ritmo frenético que a banda impõe; se você não conhece esta canção do último álbum, certamente conheceria a próxima, lá do CD de estreia. Esta sequência se encerra com o hit “Paradise” (de “Mylo Xyloto”).

No segundo momento, a banda foi para o Palco B, onde tocou “Everglow”, do último álbum, seguida por “Princess of China” – o que enfraqueceu o número. A música, com participação de Rihanna por vídeo, deixou o show mais impessoal e artificial, desconectando parte do público por sua duração. Isso foi rapidamente revertido com a batida de “Magic” (“Ghost Stories”, 2014), logo seguida pela canção responsável por catapultar o Coldplay ao estrelato mundial, “Clocks” (também de “A Rush…”, 2002). Veio “Midnight” (“Ghost Stories”) como transição antes de entrarmos na fantástica “Charlie Brown”, seguida de “Hymn For the Weekend” – outra música com dueto à distância, desta vez com Beyoncé.

Talvez o momento mais emotivo no show – ao menos para mim – foi iniciado por “Fix You” (“X&Y”, 2005). Em um momento mais calmo, passei a refletir como tenho sorte de ter visto quase todas as bandas que me formaram musicalmente, ou que gosto especialmente hoje, ao vivo. Entre as que não pude ou poderei ver, estão Led Zeppelin, The Who e, principalmente, meu David Bowie.

Foi nessa hora que a banda começou a fazer um cover de “Heroes”, do Bowie.

Como você vê no vídeo, foi o único momento que fiquei em silêncio, em choque, enquanto a música era tocada. Fui saber posteriormente que eles tinham feito a mesma coisa ao longo da turnê que, pela primeira vez desde 2008, não acompanhei. Isto tornou o momento muito mais intenso. A vibe mudou logo em seguida com “Viva la Vida” (álbum homônimo, 2008) e “Adventure of a Lifetime”, deste álbum atual.

Os rapazes em seguida foram para o terceiro palco, o Palco C, mais próximo de onde eu estava, e continuaram a surpreender com músicas resgatadas do início da carreira. A curta “Parachutes” foi seguida por “Shiver” – uma das melhores da banda -, ambas do álbum de estreia de 2000. Entrou no telão um pedido de fã escolhido via Instagram, e a banda fechou este momento Acústico MTV com “A Message” (de “A Rush…”).

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Com a banda ali atrás.

O trio “Amazing Day” (desta turnê), “A Sky Full of Stars” (“Ghost Stories”) e “Up&Up” (também deste álbum) fecharam o show com a energia alta. O vocalista Chris Martin interrompeu “A Sky Full of Stars” para que três casais de noivos se pedissem em casamento no palco, e o final de “Up&Up” foi interrompido por um invasor beijoqueiro, que foi agressivamente arrastado do palco pela segurança – ao que o vocalista parou a música para protestar. “Vai com calma, vai com calma”, disse o ex-marido de Gwyneth Paltrow antes de voltar ao microfone e explicar para plateia: “só queria me dar um beijo, nada demais”.

Graças às pulseiras brilhantes, canhões de laser e batidas cada vez mais fortes, os shows do Coldplay já foram chamados de “rave indie” e “micareta pop” – termos que, por mais engraçados que sejam, não importam diante do evento musical, de produção e de simpatia apresentada pela banda. Quando eles saem do palco depois de duas horas de show, sem bis, e créditos sobem na tela, temos a certeza de termos visto um espetáculo.

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Para mim, pessoalmente, foi incrível. Ao me permitir extravasar todo sentimento de melancolia nostálgica e busca pela esperança que Coldplay representa para mim, pude embarcar com eles nesta jornada pelo que eles apresentaram de melhor. Esqueci os tropeços, relevei as faltas e gritei e cantei com todo o ar dos meus pulmões. Na saída, todos ainda cantarolavam, em uníssono, o “ôooh” de “Viva la Vida”, e eu mais uma vez, mesmo que por uma noite, me senti mais do que parte de um grupo: me senti parte de mim.

Gostando ou não do grupo, com ou sem fim à vista, é inegável que o Coldplay tem e inspira uma energia singular. É ela que vibra em seus fãs e, em meio à rejeição de outros públicos e parte da crítica, permite que a banda continue enchendo estádios pelo mundo – eles, você e eu; nós contra o mundo.


2 comentários sobre “PontoXP #08 – Coldplay no Maracanã

  1. Maravilhoso seu texto! Me emocionou aqui. Fiquei na premium branca, na frente deles e ainda não me recuperei rsrs.
    Estamos trabalhando forte para a volta deles no Rock in Rio 2017. É possível sim! Temos página no face e perfil no insta. Vou compartilhar seu texto na nossa página agora. Se puder/quiser entre em contato com a gente inbox ou via e-mail. Um abraço Coldplayer!

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