Transversal #14 – Os Jardins Suspensos da Babilônia (ou “Into the Wild”)

Os incríveis Jardins Suspensos da Babilônia, como grande parte das mais louvadas maravilhas feitas pelo homem, provavelmente jamais existiu. Amitis teria pedido ao seu esposo, o Rei Nabucodonosor, que construísse algo que a lembrasse as paisagens montanhosas e verdejantes de sua terra natal. Assim foi construída (ou não) uma das mais incríveis obras já feitas em virtude da nostalgia – e é aqui que entram Adele, John Hughes e músicas de abertura que não saem da sua cabeça.

Enquanto no mundo antigo a nostalgia construía jardins, nossas próprias versões, considerando proporções, estão estampadas em camisas, ressoando em nossas rádios e brilhando em nossas televisões. Programas de tevê como “Fuller House” e “Girl Meets World” não começam do zero, mas seguem com a história para poder atrair novos públicos enquanto serve ao mais velhos.

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Elenco de Boy Meets World e Girl Meets World.

Da mesma forma, depois de um certo número de anos, não nos importamos mais com qualquer problema de qualidade com nossos filmes de Sessão da Tarde, dos nossos Ferris Buellers e jovens rejeitados. Na verdade, nós os buscamos muitas vezes não por sua existência como filme, mas pela sensação de estarmos mais uma vez no chão de casa, sentado após a escola, tomando Toddynho com biscoito Maria, ouvindo a vinheta que antecedia os filmes da galerinha da pesada aprontando altas confusões.

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Não há provas arqueológicas de que estes Jardins Suspensos tenham existido, e talvez a glória desses enormes jardins – desses cultos ao passado, muitas vezes um que não vivemos, e da ânsia de retornar para onde não tem volta – esteja exatamente na impossibilidade de revisitá-los. Embora Adele diga pular pelas ruas e escapar das rachaduras como quando era criança, talvez quando pequena ela não aproveitasse aquele momento da mesma forma por ele ser um evento recorrente. A magia da nostalgia talvez resida nesta parede de vidro intransponível que nos permite mirá-la, mas não interagir com ela.

É atribuído a Heráclito de Éfeso a frase que diz que “não podemos mergulhar duas vezes no mesmo rio; as águas dele jamais são as mesmas, e nem o será você”. Neste sentido, este rio caudaloso para o qual não podemos voltar é a parte mais importante dos jardins suspensos que você constroi para si mesmo, em homenagem a todos os lugares para os quais você não vai voltar, e para todas as pessoas as quais você jamais será novamente. E, assim como os jardins suspensos da Babilônia, o que o torna tão místico e maravilhoso é o fato de que ele um dia sumirá com você – ou não.


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