Classicologia #16- “O que terá acontecido com Baby Jane?” (1962)-o terror e a loucura da decadência

“Você quer dizer que todo esse tempo nós poderíamos ter sido amigas?”

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O cinema detém o poder de ser a melhor opção para falar dele mesmo. Essa metalinguagem, ou seja, a forma como a sétima arte fala dela mesma, é muito mais comum do que podemos imaginar, e sempre rende ótimos aprendizados. Atualmente estou seguindo a linha de assistir filmes sobre o próprio cinema e sobre a vida por detrás das telas. O último que assisti foi O que terá acontecido com Baby Jane?, um terror psicológico de 1962, dirigido por Robert Aldrich e estrelado por Joan Crawford e Bette Davis. Posso dizer que há muito tempo eu não assistia um filme que me deixasse com sentimentos tão mistos, e que eu me encantasse tanto.

O que aconteceu com Baby Jane…

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É a história conturbada da relação entre duas irmãs, Jane (Bette Davis) e Blanche (Joan Crawford). As duas são ex- atrizes, entretanto, Jane experimentou o sucesso apenas quando criança, enquanto Blanche foi mais duradoura. O convívio entre as duas se torna insuportável, pois Blanche vive em uma cadeira de rodas devido a um acidente pelo qual culpa sua irmã de ter provocado.

As “Janes” que conhecemos…

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Jane foi uma garotinha de sucesso. Tinha seus espetáculos sempre lotados, era assediada pela mídia e pelos fãs, e tinha todo um trabalho de marketing, que fica registrado na boneca inspirada na atriz. Confesso que logo na primeira cena do filme, Jane me fez lembrar da atriz Shirley Temple,  famosa na época da Grande Depressão. Temple foi um prodígio, estrelando vários filmes e chegou a ser a criança mais fotografada dos Estados Unidos, virando um verdadeiro ícone americano.

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Além de Shirley Temple, existem muitos outros atores que ficaram famosos logo na infância, como por exemplo Dakota Fanning. Ela estreou no cinema em 2001 no filme Uma lição de amor, ao lado de Sean Penn e Michelle Pfeiffer.

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As gêmeas Mary Kate e Ashley Olsen fizeram sua primeira aparição com apenas nove meses na série Três é demais, em 1987. Atualmente as gêmeas são empresárias do ramo da moda.

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Entretanto, assim como Jane, algumas crianças famosas crescem e sofrem a decadência. Uma delas é a atriz e cantora Lindsay Lohan, famosa na infância pelo seu trabalho em Operação Cupido, em 1998.Anos mais tarde ela se envolveu em diversos escândalos, dentre eles uma prisão de 90 dias e a internação em uma clínica de reabilitação.

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Ao pensarmos em crianças que foram famosas e se tornaram decadentes ao crescer, impossível não lembrar de Macaulay Culkin. O garoto ficou conhecido pela sequência de filmes Esqueceram de mim, nos anos 90, mas nos anos 2000 viu sua fama ser associada a confusões e drogas.

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Bette Davis e Joan Crawford- rivalidade além da tela

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Hollywood possui algumas inimizades famosas, mas, provavelmente, nenhuma delas é tão icônica quanto a que existia entre Bette Davis e Joan Crawford. Davis é conhecida por sempre ter preferido interpretar vilãs no cinema, enquanto Crawford era a moça meiga e doce em seus filmes.

A origem da rivalidade é incerta, entretanto alguns atribuem isso ao fato delas terem começado a carreira cinematográfica na mesma época. Bette Davis iniciou no teatro, enquanto Joan Crawford era dançarina de strip- tease antes de conseguir um contrato com a MGM. Essa passagem da vida de Crawford era sempre utilizada por Davis em suas alfinetadas, que dizia que sua rival havia feito fama por causa da beleza, e não do talento, além de insinuar que “ela já dormiu com todos os astros da MGM, exceto a Lassie”.

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Em 1961, Robert Aldrich foi audacioso e convidou as duas estrelas rivais e já velhas, para estrelar O que terá acontecido a Baby Jane?. Ambas deram show de atuação no filme, mais que do talento, desfrutou, também, da situação fora das telas entre as duas. Existem algumas histórias curiosas dos bastidores do filme, como por exemplo, Bette Davis realmente ter chutado Joan Crawford em uma cena de briga, e  Joan Crawford ter colocado pesos nos bolsos de Bette Davis durante uma cena em que deveria ser arrastada. Além disso, Crawford era viúva do presidente da Pepsi, e Davis, para implicar, mandou ser instalada uma máquina de Coca- Cola nos estúdios.

A rivalidade era tão forte, que Davis não poupou nem a morte de Crawford, proferindo, na época, que “Nunca se deve falar coisas ruins sobre alguém que está morto. Apenas coisa boas. Joan Crawford está morta. Ótimo!”

O que terá acontecido com Baby Jane deve ser assistido porque…

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Nunca foi feito um filme sobre a decadência das estrelas de cinema tão realista quanto esse. Nem mesmo o magnífico Crepúsculo dos deuses conseguiu transcender para as telas a vida de um artista esquecido com tanta proeza. O filme já se consagra pelo fato de juntar duas artistas veteranas (para não ficar chamando-as de “velhas” toda hora) e rivais ao extremo para viver duas irmãs em crise, criando um clima de terror psicológico.

A realidade além-tela fica óbvia na personagem Blanche, de Joan Crawford. Assim como a atriz, a personagem durante todo o filme passa a imagem de sofrida e de ser injustamente atacada pela loucura angustiante de sua irmã. Porém, no final, sabemos que ela não é tão “santa” quanto parece, algo que se aproxima da própria atriz, que sempre interpretou mocinhas, mas na vida real era considerada uma pessoa sem afeto além de ser dependente do álcool.

Apesar disso, Crawford sempre foi muito talentosa, e em O que terá acontecido a Baby Jane?não é diferente. Entretanto, a maior estrela do filme é sem dúvida alguma Bette Davis, diva-mor do cinema, que pode se gabar de Jane ter sido seu melhor papel já feito!

Davis consegue fazer o espectador odiá-la e sentir compaixão ao mesmo tempo. Jane nada mais é do que uma eterna criança que tudo teve e nada mais possui. Pode ser chamada de mimada? Talvez. Mas não é difícil imaginar sua situação, uma estrela decadente, de quem ninguém mais se lembra, e que vive presa e atormentada a uma situação da qual sentia-se culpada, quando na verdade era inocente. A cena mais bonita do filme é sem dúvidas quando ela volta a ensaiar as canções antigas, e se veste da mesma forma como quando criança. É Bette Davis fazendo arte de verdade, inteligente e que mexe com as emoções de seus espectadores, numa época em que mais que entretenimento, o cinema se preocupava consigo mesmo.

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Classicologia é a coluna quinzenal de Nay Berger (me, myself and I!), e aqui tenho a intenção em tirar aquele “cheiro de poeira” dos grandes clássicos do Cinema mundial.

 

 


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