Spotlight – Segredos Revelados (2015)

“Marque minhas palavras: se é preciso uma cidade para criar uma criança, também é preciso uma cidade para abusar de uma.”

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Título: Spotlight – Segredos Revelados (“Spotlight“)

Diretor: Tom McCarthy

Ano: 2015

Pipocas: 9,5/10

Em um cinema tradicional em Botafogo, corri para pegar a sessão de 16h30 de “Spotlight – Segredos Revelados”. Em meio à pressa, foi mais fácil resistir à tentação e não ver nada sobre o filme antes de entrar; sabia somente que estava com múltiplas indicações ao Oscar e que ganhara o prêmio SAG de Melhor Elenco. Deparei-me com um ótimo filme baseado em fatos sobre uma investigação quanto a uma estrutura que acobertava abusos de menores por padres na cidade de Boston. Ali, dentre duas senhoras de idade, eu era o mais chocado a cada revelação – embora tivesse fortes competidores por toda a sala de cinema, julgando pelos sons emitidos. Esse é o nível de qualidade de “Spotlight”.

O filme conta a história real de um grupo de jornalistas investigativos – a Spotlight do título – no jornal The Boston Globe. Liderados pelos editores Walter “Robby” Robinson (Michael Keaton, de “Birdman“) e Ben Bradlee Jr. (John Slattery, de “Mad Men“), Sacha Pfeiffer (Rachel McAdams, de “True Detective“), Michael Rezendes (Mark Ruffalo, de “Foxcatcher“) e Matt Carroll (Brian D’Arcy James) são orientados pelo novo editor-chefe do jornal, Marty Baron (Liev Schrieber, de “Ray Donovan”), a investigar um caso de uma criança molestada sexualmente por um padre, o qual aparentemente foi acobertado pelo cardeal de Boston. Ao longo da investigação, a equipe Spotlight acaba por desvendar uma enorme rede de acobertamento de abusos de menores envolvendo dezenas de padres, alto clero, advogados e autoridades da cidade.

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O tema de “Spotlight”, que já seria sensível e crítico em qualquer circunstância, o é ainda mais no contexto brasileiro; em um país majoritariamente católico, o posicionamento incrédulo da população de Boston em relação ao escândalo ecoa com sinos de reconhecimento para nós, e sentimos que Spotlight poderia ter acontecido no Brasil – e, de certa forma, aconteceu. Ao fim da projeção, o filme lista outras cidades que tiveram escândalos semelhantes, e lá estão Mariana (MG) e Rio de Janeiro (RJ) como representantes brasileiros nesta lista de horrores.

Neste sentido, este é um filme muito curioso, pois ao mesmo tempo em que fascina com o processo ocorrendo em cena, cada descoberta acresce à gravidade da situação. O andamento da investigação jornalística gera um encantamento intenso, e não seria estranho se Spotlight criasse uma nova geração de repórteres da mesma forma que “Sociedade dos Poetas Mortos” o fez com professores.

Apesar da glória sem glamour dos jornalistas que tanto nos maravilham, as descobertas levantadas por eles nos deixam boquiabertos a cada nova informação. A crueldade dos abusos e a naturalidade com que alguns personagens tratam do caso são de revirar o estômago, conseguindo gerar a intensidade de reação necessária para que possamos entrar na briga com os repórteres.

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Muito disso se deve às atuações competentes que vemos em cena. Keaton, McAdams, James e principalmente Ruffalo entregam personagens críveis e com a profundidade precisada para que os acompanhemos na investigação; todos eles recebem uma história de fundo, e entendemos como a dedicação ao jornal e a esta investigação impactam suas vidas. No elenco de apoio, Stanley Tucci está excelente como o advogado Mitchell Garabedian, e suas cenas com Ruffalo são excepcionais.

O destaque acima para Mark Ruffalo é devido pela composição de seu personagem. É excelente ver um ator que veio de comédias românticas chegar a este amadurecimento em sua atuação, agregando tiques e maneirismos ao personagem sem torná-lo caricato enquanto aprofunda suas motivações. Por um cinema com mais Marks Ruffalos e Matthews McConaugheys.

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Em termos de direção, Tom McCarthy não procura reinventar a roda e entrega um filme visualmente básico, embora competente, que usa de zooms para engrandecer ou diminuir as tensões enfrentadas pelos personagens. O estilo narrativo lembra o de “Argo” (2012), ganhador do Oscar de Melhor Filme – o que é um bom presságio para este concorrente. Vale dizer, contudo, que “Spotlight” é superior a “Argo”, exatamente por ter um roteiro mais denso e personagens com maior potencial de empatia.

Além disso, é impossível sair da sessão de “Spotlight” sem remoer os elementos ali apresentados. Uma cidade inteira jogou sob o tapete durante 40 anos a estrutura que perpetuava abusos para proteger a Igreja Católica local – seja por proteção de seus próprios princípios ou pelos benefícios que a igreja trazia. O preço disso foram as crianças molestadas, roubadas de suas infâncias, da autonomia sobre seu corpo e, conforme dito por uma das vítimas no filme, roubadas de sua própria identidade espiritual.

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A reflexão que o filme deixa de dever de casa é até que ponto você estaria disposto a sair da sua zona de conforto e enfrentar a sociedade por algo que é irrevogavelmente certo, mesmo que seja incômodo reconhecer isso frente aos demais. Sob este prisma, é um filme que nos faz questionar as estruturas religiosas, mas mais do que isso: ele põe em xeque nossas próprias definições de “pessoas boas” que nós somos. Substitua o caso destes abusos em Boston para a maneira como o governo e nós tratamos moradores de rua, por exemplo, e o filme passa a questionar a nossa sociedade de maneira direta e prática.

“Spotlight” é um filme imperdível que precisa ser visto com calma – nem por ser complexo, mas exatamente para que possamos absorver o impacto dele da maneira que é devido, e com sua técnica competente e história muito envolvente, o longa é um candidato forte para o Oscar deste ano. De Boston ao Rio à sua cidade, sempre haverá uma questão que demandará uma equipe Spotlight. O que falta somente é entendermos que, na era das redes sociais, todos nós somos uma Spotlight.


5 comentários sobre “Spotlight – Segredos Revelados (2015)

  1. Ta ai um filme que eu acredito ser mesmo ótimo, mas vou relutar muito a assistir. Tinha lido outra resenha há pouco, mas ficou a dúvida do quão “de revirar o estomago” Spotlight é. Dúvida sanda. Um baita alerta para meu estomago sensível.

    1. Não é preciso estômago pra ver o leve #Spotlight. O filme trata de jornalistas montando uma matéria sobre padres pedófilos, a quantidade deles e dos agredidos numa cidade. Já #Michael, de Markus Schleinzer (Áustria, 2011), precisa de muito, e põem muito mais estômago… pra acompanhar a rotina e o dia a dia de um pedófilo que mantém uma criança em cárcere privado no porão de sua casa, ao seu bel-prazer. Aí sim precisa de muito, mas muito estômago… E fora que não se esquece mais o que se vê no filme. Vc leva o choque, o desconforto, a raiva, a ira e a vontade de fazer justiça pro resto da vida.

  2. Não é preciso estômago pra ver o leve #Spotlight. O filme trata de jornalistas montando uma matéria sobre padres pedófilos, a quantidade deles e dos agredidos numa cidade. Já #Michael, de Markus Schleinzer (Áustria, 2011), precisa de muito, e põem muito mais estômago… pra acompanhar a rotina e o dia a dia de um pedófilo que mantém uma criança em cárcere privado no porão de sua casa, ao seu bel-prazer. Aí sim precisa de muito, mas muito estômago… E fora que não se esquece mais o que se vê no filme. Vc leva o choque, o desconforto, a raiva, a ira e a vontade de fazer justiça pro resto da vida.

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