Classicologia # 15- Laranja Mecânica (1971)- uma história horrorshow

“É curioso como as cores do mundo real parecem muito mais vivas quando vistas no cinema.”

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Um dos primeiros filmes que amei com todo o meu coração, Laranja Mecânica é uma obra tão perturbadora e questionadora que às vezes, dentre as inúmeras sessões que fiz deste filme, eu me pegava entre o ódio/indignação e piedade por Alex DeLarge! Ultrapassando as barreiras da literatura e do cinema, virou referência na cultura pop. Tanto o livro, escrito por Anthony Burgess em 1962, quanto o filme, dirigido por Stanley Kubrick em 1971, são obras que figuram, frequentemente, em listas de filmes/livros essenciais, e até mesmo em guias de produções polêmicas. E foi justamente numa dessas que eu o conheci.

O próprio autor do livro revela que ouviu nome Laranja Mecânica após, em um pub londrino, escutar alguém dizer “tão estranho quanto uma laranja mecânica”, uma gíria de origem cockney, que significava algo bizarro e insano. Burgess, então, fez diversas reflexões acerca daquela expressão e só achou sentido quando a relacionou com a história que estava escrevendo, sobre um delinquente juvenil, e com certo boato que havia ouvido de que seria boa ideia acabar com o impulso criminoso através da terapia de aversão. Foi com a junção de tudo isso,

Que surgiu a história de…

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Alex DeLarge (Malcom McDowell), um adolescente que junto com seus três amigos, os quais ele chama de “druguis”, tem como principal diversão atos noturnos de violência. Eles frequentam um bar chamado Lactobar Korova, onde bebem o “leite-com”, leite misturado com drogas e saem para praticar a “ultra-violência”.

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Por causa de uma “vingança” de seus amigos, Alex é preso, e após um tempo na cadeia ele passa por um método chamado Tratamento Ludovico. Esse tratamento fez com que ele sentisse nojo de todas as coisas ruins que fazia anteriormente. Após ser liberado e voltar a sociedade, Alex se encontra num mundo diferente, sendo rejeitado por seus pais e sofrendo na mão de seus ex-amigos que tentam afogá-lo.

Depois desse sofrimento, o garoto, então, aparece na casa do escritor, o mesmo que aparece no início do filme sendo machucado e tendo a esposa violentada por Alex e sua gangue. O ex delinquente fica por ali e acaba descobrindo que já não suporta mais ouvir sua música preferida, a Nona Sinfonia de Beethoven. Agoniado por isso, ele se joga da janela e depois acorda num hospital, onde o Ministro do Interior lhe pede desculpas pelo tratamento, e Alex descobre que “voltou ao normal”.

O léxico

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Laranja Mecânica foi escrito para que o leitor pudesse, ao ler, sentir como se estivesse num bate-papo com Alex.  Para tanto, Anthony Burgess criou um novo vocabulário, concebido de modo que soasse como gírias adolescentes do protagonista. O autor criou esse novo dialeto, batizado Nadsat, devido a influência que tinha da Linguística, e seu grande conhecimento de outros idiomas. Diante disso, o Nadsat é uma mistura de várias línguas, dentre elas o russo, inglês, e o cockney (maneira de falar dos britânicos pertencentes à classe operária). Tanto para quem lê, quanto para quem assiste ao filme, muitas vezes a compreensão fica corrompida devido a falta de conhecimento acerca dessas palavras. Problema enfrentado pelos primeiros leitores, já que as edições não continham glossário e algumas das principais palavras, como as listadas a seguir, tinham que ser “adivinhadas”.

  • Bizumni- louco
  • Devotchka- garota
  • Drugui- amigo
  • Glazi- olho
  • Gúliver- cabeça
  • Horrorshow- ótimo, excelente, legal
  • Krikar- gritar
  • Króvi- sangue
  • Malenk- pequeno, pouco
  • Moloko- leite
  • Platis- roupas
  • Razdraz- irritado
  • Sintemesc/ velocet- droga alucinógena
  • Sluchar- escutar
  • Smekar- sorrir
  • Tia pecúnia- dinheiro
  • Toltchok- golpe, porrada
  • Videar- observar
  • Yarbli- testículo

Laranja Mecânica- a adaptação e a referência na cultura

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Sabemos que Cinema e Literatura são duas formas de arte com conceitos distintos e que a “fidelidade” muitas vezes imposta pelo espectador é inviável. Stanley Kubrick conseguiu alcançar ao máximo, dentro dos limites cinematográficos, a ideia de Anthony Burgess. O diretor conseguiu visualizar o mundo que o autor idealizou, criando cenários que traduzem o tempo cronológico indefinido, e trazendo aos olhos a visão de um Alex icônico. Burgess, apesar de algumas divergências com o diretor, elogiou o trabalho de Kubrick, entretanto, ficou insatisfeito com a falta do capítulo final de seu livro na adaptação para o cinema, uma carência que, em partes, se deve as editoras americanas que não o publicavam.

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O ator Malcom McDowell e o diretor Stanley Kubrick

O filme chegou a ser indicado a quatro Oscar, nas categorias Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado e melhor Edição, mas, ganhou nenhum desses prêmios.Apesar disso, Laranja Mecânica foi, e ainda é, um grande sucesso, tendo se tornado uma importante referência na música, na moda, no cinema, na cultura pop em geral. Alguns influenciados:

Vynil, de Andy Warhol- versão cinematográfica do artista para o livro

A-lex, Sepultura- álbum inspirado na trajetória de Alex

You Da One, Rihanna- figurinos e cenários inspirados pelo filme

Moloko, nome de uma banda irlandesa

The Devotchkas, banda feminina norte- americana

Ziggy Stardust, David Bowie- o cantor revelou que a estética de seu álbum foi inspirada pelo filme

Os simpsons

Heath Leadger- o ator teve Alex DeLarge como inspiração para compor o personagem Coringa

Lana DelRey ,Ultraviolence- a cantora utilizou como nome de seu álbum uma das palavras mais proferidas por Alex

Laranja Mecânica deve ser assistido porque…

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É uma obra atemporal, que trata de aspectos que sempre estão em alta nas discussões, desde críticas políticas até as tendências psicológicas e sociais, além da caracterização dos cenários e personagens, que como visto anteriormente, ainda é fonte de inspiração.

Há quem diga que a obra envelheceu mal, já que as cenas de violência não chocam tanto mais hoje em dia, porém, isso consiste num grande equívoco. Para entender o porquê, é necessário entender a obra como uma grande alegoria, ou seja, é essencial compreender que por trás de cada diálogo, de cada cena violenta há uma representação de pensamentos, de uma ideologia. Tudo tem um propósito e esconde em suas entrelinhas um significado muito maior.

Alex é uma alegoria das críticas políticas de Burgess, encaixando-se na teoria Behaviorista de Skinner, que diz que o ser humano é regido pelo meio em que vive.  A crítica aparece no decorrer de toda a obra, porém, fica mais intensa quando Alex passa pela lavagem cerebral e perde suas vontades, é imposto a ser alguém que não é para agradar a sociedade e ao sistema, não tendo condições de opinião e nem de ação. Vira um ser literalmente mecânico, num mundo distópico, ou seja, autoritário, que faz de seus habitantes verdadeiros escravos do sistema (assim como é representado em 1984 de George Orwell, e Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, com adaptação cinematográfica dirigida por François Truffaut).

Laranja Mecânica trata, então, sobre as limitações que fazemos para sermos aceitos em sociedade. É o fruto do questionamento sobre o livre arbítrio, do que é ser mau, do que é o mal. Portanto, apegar-se apenas ao estético não é o caminho para a compreensão e aceitação de uma obra tão complexa e encantadora, e que continua contemporânea e escandalosa mesmo depois de tanto tempo.

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