“A Pequena Morte” (2014): Sexo, Sangue & Sigmund Freud

“Da próxima vez, você deveria começar com leveza e ir ficando mais forte gradativamente. Só para você saber.”

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Título: A Pequena Morte (“The Little Death“)

Diretor: Josh Lawson

Ano: 2014

Pipocas: 8/10

Às vezes ir ao cinema sem saber o que você vai ver lhe traz gratas surpresas. A comédia “A Pequena Morte” – que toma seu nome emprestado para uma gíria francesa para “orgasmo” – estreou nos cinemas dos Estados Unidos ano passado, e chegou ao Brasil esta semana. Nos pegando de surpresa, o filme fala de tendências sexuais fora do padrão, e como esta afeta a vida de seus praticantes – e, por consequência, daqueles ao redor. Com um roteiro interessante e bem amarrado, “A Pequena Morte” faz jus ao seu título de diversas formas.

O filme trabalha seu tema através de pequenas histórias interligadas. Maeve (Bojana Novakovic) e Paul (Josh Lawson, roteirista e diretor do filme, também presente na série “House of Lies”) decidem lidar com o fato de que Maeve tem uma tara com ser violentada; Dan (Damon Harriman) e Evie (Kate Mulvany) decidem fingir ser outras pessoas para reavivar o relacionamento; o pai de Richard (Patrick Brammall) morre, e sua esposa Rowena (Kate Box) descobre que se sente excitada quando pessoas choram; Phil (Alan Dukes) dopa sem querer sua mulher Maureen (Lisa McCune), e percebe que ela é uma pessoa muito mais agradável dormindo; Sam (T.J. Power) precisa dos serviços de tradução para surdo-mudos oferecidos pela empresa de Monica (Erin James) para uma ligação um pouco desconfortável. Unindo todas essas histórias, um criminoso sexual condenado chamado Steve (Kim Gyngell) precisa se apresentar para cada um deles, “conforme estabelecido por lei federal”.

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Em termos técnicos, o roteiro é muito simples e não inova; a forma que a narrativa e os comportamentos sexuais são apresentados é básica e didática, de forma a não perder muito tempo – compreensível, sendo um filme com tantos personagens. Estes, por sua vez, são interessantes, mas suas histórias acabam os transcendendo – como era de se esperar, visto o pouco tempo de tela que cada casal acaba tendo. Essa regra só tem exceção em Sam e Monica, que são, de longe o casal mais carismático em tela. Erin James é uma atriz que merecia mais filmes, e T.J. Power consegue ser divertido sem uma fala, literalmente. Ainda assim, é em termos de conteúdo que o filme merece destaque.

Monica

Muito do que o filme quer dizer já é explícito em seu título – a única coisa explícita no filme, inclusive; por tratar sobre casais com dificuldades sexuais, o filme tem poucas cenas com este teor, e são bem estéreis. “La Petite Morte” é uma gíria francesa para se referir ao orgasmo, partindo de uma teoria que os momentos de perda de consciência total no ápice sexual seria o mais próximo da morte que alcançaríamos em vida. O roteirista e diretor Josh Lawson brinca com este conceito ao acrescentar elementos de morte, de fato, na trama, transformando seu filme em uma comédia de humor obscuro e trazendo uma análise psicoanalítica para seu longa – talvez totalmente sem querer. Não vou ser prepotente em dizer que o diretor “quis dizer isso”, de forma alguma; são apenas reflexões que o filme acabam por incitar.

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As histórias, inicialmente, parecem autocontidas, mas através da figura do criminoso sexual Steve, que é obrigado a se apresentar para seus novos vizinhos, notamos que todos moram na mesma região, talvez na mesma rua. Isto já mostra que, apesar de suas vidas externamente parecidas, aparentemente normais, cada casal se assemelha ao ter uma vida sexual abaixo do ideal, mas se diferencia ao ter seu próprio microverso de dificuldades específicas e taras consideradas estranhas.

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Não. Só… Não.

Além de Steve, um elemento “Efeito Borboleta” interliga as tramas no segundo ato. Um cachorro perdido, um atropelamento e um aparelho de surdez acabam por encerrar todas as histórias de maneira catártica. Aqui, vale ressaltar que todos esses elementos entram em ação externamente como fruto dos casais tentando exercitar suas fantasias, mostrando como mesmo os atos praticados entre quatro paredes acabam por repercutir em outras vidas.

Quando todas essas causas e consequências se entrelaçam, Freud bate palmas. Enquanto o Eros, a pulsão sexual de vida, é estimulada nos casais que experimentam suas taras, a pulsão de morte Tânato também encontra espaço, seja na vizinhança ou dentro do próprio casal. Com este viés, temos um novo significado para o título do filme: a “pequena morte” é o orgasmo, mas também é, literalmente, a perda da vida. Na verdade, a “pequena morte” também é a origem da vida, como apontado por uma médica para um dos casais, que quer ter um filho: “as chances de concepção são maiores quando a mulher também chega ao orgasmo”.

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Cabe ainda destacar duas tramas do filme, por motivos diferentes. O arco de Dan e Evie é curioso por mostrar como a tara de Dan transcende o âmbito sexual; um sonho adormecido de ser ator é despertado com um comentário despretensioso de Evie, e gradativamente a parceira e o sexo se tornam menos relevantes, enquanto Dan busca uma realização que foge da cama dos dois. Enquanto isso, a cena da conversa de Monica e Sam é certamente o ponto alto do filme, e talvez a mais original de toda a projeção. Com um diálogo truncado, os dois tentam realizar uma fantasia limitada de Sam; por mais desconfortável que Monica esteja no processo, é seu trabalho, e ela precisa realizá-lo com profissionalismo.

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Apesar de ser um filme simples australiano – junto assim dois motivos para o público e crítica ignorá-lo -, “A Pequena Morte” consegue ser um longa que nos releva à reflexão sobre como as taras dos outros sempre parecem ser mais anômalas do que as nossas, bem como o impacto dessas práticas nas vidas pessoas e nas relações sociais de maneira divertida e despretensiosa. As pessoas decidiram ser felizes em sua vida sexual: salve-se quem puder.


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