Transversal #9 – Lendas (ou “Sou Fã”)

Era comum, mesmo após a invenção da escrita, que o conhecimento adquirido por um povo fosse passado de geração a geração através de relatos orais. Contava-se como aquela tribo havia chegado ali através de suas histórias, e também explicavam como havia um deus com um martelo nos céus que causava os trovões, ou como um deus teve de matar seu pai para constituir seu trono – dessa forma ascendendo o relato a mito. Minha geração, nascida nos anos 90, ouviu falar muito de Star Wars, e mesmo o lançamento da trilogia prequel, em 1999, acabou por fortalecer ainda mais este mito devido à sua (falta de) qualidade, porque “a trilogia original foi fantástica”, apesar disso.

'Star Wars Identities' Exhibtion Press Preview & VIP Opening

Então veio 2015, e em seu décimo-sétimo dia de seu décimo-segundo mês, nós vivemos o mito e pusemos a lenda à prova.

Dorothy precisava voltar para casa – embora seja difícil saber o que tanto ela queria de volta, visto que ela morava no Kansas -, então ela foi pegar sua estrada de tijolos amarelos junto aos seus amigos desfuncionais para encontrar o Mágico de Oz. Ao chegar lá, buscando sua magia, ela acaba por olhar por trás das cortinas, vislumbrando uma estrutura a qual ela não precisava ver, mas que foi exatamente o que salvou a ela e a seus amigos – descobrir que não havia mágica, mas apenas uma capacidade latente neles mesmos de fazer a mágica acontecer.

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Por mais poético que isso seja, eu, como fã de Star Wars, tinha medo de buscar o mago e encontrar um idoso um tanto quanto inútil para meus propósitos; em outras palavras, temia que, ao enfrentar o mito, acabasse por abordá-lo não de uma forma de uma forma infantil, ficando maravilhado com o que visse, mas de uma forma cética, vendo as estruturas por trás dele: “esse personagem é apenas o alívio cômico”, “este é para serviço dos fãs”, “este…”.

E admito que isso aconteceu, mas qual foi a minha surpresa ao ver que, neste caso, ao conhecer o truque, ele não me pareceu menos mágico. Analisando meu próprio mago por trás das cortinas, imagino que isso se dê pelo fato de a nostalgia ser a antítese do ceticismo, ao permitir que você enxergue como criança o que vê seus olhos de adulto.

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Ainda assim, o risco era grande, se pararmos para pensar. Desde que a data de lançamento foi anunciada, uma contagem regressiva mundial se iniciou, e todos os relógios do mundo foram ajustados para o fuso de Star Wars. Mais do que ansiedade para ver o filme, a minha geração colocava em xeque toda sua infância que fora construída sobre relatos de outros naquela projeção: se o filme fosse ruim, a franquia teria oficialmente mais filmes ruins do que bons. Além disso, não tínhamos mais George Lucas para culpar pelas falhas; se o longa fosse um fracasso, seria a própria franquia um fracasso que por acaso teve dois filmes ótimos e um bom, há muito tempo numa galáxia muito distante?

Era uma aposta alta. Enquanto eu entrava na fila da pipoca (somente para conseguir minha almofada do Kylo Ren), eu me lembrava do que o Oasis uma vez cantou em “Don’t Look Back in Anger”: “por favor, não ponha sua vida nas mãos de uma banda de rock que irá jogá-la fora”. Eu pensava em como era exatamente isso que fazíamos naquele momento, colocando parte de nossa infância, de nossa própria vida, no resultado de um filme de duas horas de duração. Ainda assim, não havia mais volta. As apostas estavam feitas, e agora só restava torcer pelo resultado.

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O que digo é que, para muitos, foi inexplicável o motivo pelo qual pessoas de todas as idades – desde adultos ainda usando seus ternos e gravatas a crianças que se esforçavam para ficarem acordadas – teriam ido à uma pré-estreia às 00h01 de uma quarta para quinta-feira, tendo que trabalhar (e viver) no dia seguinte. Quando entendemos a Força que o mito tem – não só dentro da obra Star Wars, mas como formador de identidades -, fica claro o porquê deste esforço.

Eles não estão ali para ver um filme. Eles estão ali para testar e descobrir a realidade por trás da lenda.

“Tranversal” é a coluna quinzenal de Erik Avilez (vulgo “eu”), na qual ele trata um mesmo tema em diversas mídias.


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