Adele: “25” (2015)

Os anos passam e as pessoas muitas vezes não se percebem mudar. É difícil manter seus gostos e hábitos juvenis enquanto sua idade avança e você deixa partes de você para trás. Há grande diferença entre seus 19, 21 e 25 anos, e Adele que o diga. De uma garota que gostava de cantar em Tottenham, Inglaterra, para uma estrela que nem mesmo precisa de sobrenome para ser reconhecida, Adele faz as pazes com o passado e consigo mesma em seu novo álbum “25”, lançado dia 20/11/2015.

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Adele, como sempre, demonstra um controle e amplitude vocal invejáveis; sua técnica é irretocável. O ambiente criado pela produção deste álbum, com reverberações na voz da cantora e vocais ecoantes conferem a diversas canções um ar espectral às músicas (que em alguns momentos lembra o último trabalho de Florence Welch) – e basta prestarmos atenção às letras para entender que isto não é à toa.

Enquanto “19” (2008) apresentava Adele e “21” (2011) mostrava a cantora se desconstruindo e se questionando, em “25” a inglesa demonstra aceitar as experiências que a tornaram quem ela é – por mais que algumas ainda doam. As presenças fantasmagóricas em suas músicas ecoam como seres do seu passado, mas aqui eles estão e, harmonia com o quê e como ela canta, demonstrando estarem em sintonia com a cantora de 27 anos (discos não são lançados de um dia para outro, amigos).

Adele
“Sinto que passei grande parte da minha querendo [ser e ter] outras coisas. (…) Se tivesse que por um rótulo, este álbum é um álbum de ‘fazer as pazes'”.
Essa temática perpassa todo o álbum. Na excelente “Hello” (que é a música que está na minha cabeça todo o tempo desde que a ouvi no Saturday Night Live, para desespero dos meus colegas de trabalho), na qual ela tenta entrar em contato com um affair antigo para desculpar-se apenas para perceber que ele não parece mais se importar. Cabe dizer que, depois de “Hometown Glory“, “Rolling in the Deep” e “Set Fire to the Rain“, essa é a música-chiclete da Adele da vez. E é ótima.

Send My Love (To Your New Lover)” apresenta uma batida mais animada, cantando exatamente um desprendimento ao dizer para seu ex-amante mandar os cumprimentos da cantora ao seu novo relacionamento – o que é um grande avanço daquela que cantava que “eles poderiam ter tido tudo” há alguns anos.

Além disso, não é apenas com desventuras amorosas que Adele se reconcilia, mas também com seu próprio amadurecimento. Ao ver o tempo passando de maneira tão implacável, a inglesa se vê obrigada a lidar com isso, e o faz de um modo a sentir a nostalgia sem se entregar à ela. Mesmo em “Hello”, ela pergunta ao seu interlocutor se ele “deixou aquela cidade em que nada acontece”, e “When We Were Young” trabalha esse tema por toda a canção. A apresentação dela no Saturday Night Live também foi fantástica; dê uma olhada abaixo.

Embora “River Lea” trabalhe a relação de Adele com sua cidade e um amor deixado lá, é “Million Years Ago” que deixa mais clara a maneira como a cantora se sente em relação ao que deixou para trás – sendo talvez a música mais importante para entendimento do álbum. Olha o refrão:

I know I’m not the only one |  Eu sei que não sou a única
Who regrets the things they’ve done | Que se arrepende do que fez
Sometimes I just feel it’s only me | Às vezes sinto que sou só eu
Who never became who they thought they’d be | Que não se tornou quem queria ser
I wish I could live a little more | Queria viver um pouco mais
Look up to the sky, not just the floor | Olhar para o céu, não somente para o chão
I feel like my life is flashing by | Sinto que minha vida está voando
And all I can do is watch and cry | E tudo o que posso fazer é assistir e chorar
I miss the air, I miss my friends | Sinto falta do ar, sinto falta dos meus amigos
I miss my mother; I miss it when | Sinto falta da minha mãe, sinto falta daquela época
Life was a party to be thrown | A vida era uma festa a se aproveitar
But that was a million years ago | Mas isso foi há um milhão de anos

Nessa letra, talvez a mais direta e impactante do álbum, Adele demonstra a fragilidade que vem com a percepção de que não há nada a se fazer com a passagem do tempo. Embora não seja, ela mesma, uma música de “estar em paz consigo”, raramente a nostalgia é um sentimento assim; um momento nostálgico normalmente é para reflexão e de olhar no retrovisor para caminhos que não foram seguidos.

Com tudo isso em vista, é interessante ver que Adele decidiu nomear este álbum também com sua idade à época. Vamos esperar o próximo álbum da cantora para nos certificar, mas já podemos pensar em “19”, “21” e “25” como uma trilogia de amadurecimento com uma profundidade raramente vista na música pop. Essa é a Adele, sem sobrenome relevante, mas com uma identidade tão marcante quanto seu já indiscutível sucesso e legado.

***

Agradecimentos a Letícia Santoro pela sugestão do vídeo.

 


Um comentário sobre “Adele: “25” (2015)

  1. Ainda não escolhi minha música favorita.
    Confesso que esperava mais diferença na temática. Consigo perceber a mudança, o amadurecimento. Mas, estava na expectativa de algo mais… Musicalmente, 25 é muito bom e deve melhorar com o tempo. Tipo vinho.

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