Que Horas Ela Volta? (2015)

“-Ela é estranha?

-Estranha?

-É, ela é… Segura de si própria.”

que horas ela volta FINAL

Título: Que Horas Ela Volta?

Ano: 2015

Diretor: Anna Muylaert

Pipocas: 10/10

Foi um desafio assistir “Que Horas Ela Volta?” inicialmente, simplesmente pela logística. Não é novidade que encontrar exibições de um filme brasileiro que não seja (uma continuação mais aguada de) uma comédia (aguada) é uma tarefa complexa. Férias do trabalho e um número crescente de salas e horários permitiram que eu finalmente o visse – e valeu muito a pena. “Que Horas Ela Volta?” é um filme que domina a linguagem cinematográfica e conta uma excelente história de valor universal.

“Que Horas Ela Volta?” nos apresenta à Val, uma empregada doméstica que trabalha há mais de 10 anos para uma família rica do Morumbi. Com a ausência do pai Zé Carlos (Lourenço Mutarelli) e da mãe Bárbara (Karine Teles), Val acaba por criar e amar o filho do casal, Fabinho (Michel Joelsas). Após mais de uma década neste contexto, surge a filha de Val, Jéssica (Camila Márdila), que chega a São Paulo para fazer vestibular de arquitetura enquanto quebra paradigmas confortáveis de sua mãe com sua visão de mundo que questiona as construções sociais impostas.

o-QUE-HORAS-ELA-VOLT

O primeiro fator digno de nota no filme é Regina Casé. Em sua primeira cena, ainda nos créditos iniciais, a atriz consegue se livrar de qualquer associação que possamos ter previamente com seu trabalho. Sua Val é um dos personagens mais ricos e interessantes que já tivemos no cinema brasileiro. A simplicidade e leveza com que lida com seu dia-a-dia é contraposto com o óbvio esforço empreendido por Casé na composição da personagem: desde o sotaque até o tom corriqueiro que imprime nas suas falas, Val é uma aula de esmero em atuação, e certamente em direção.

Digo “certamente” porque esse sucesso de direção de Anna Muylaert não é visto só em Regina Casé. Todo o elenco está em uma sintonia invejável. A entrega das falas do (ótimo) roteiro é natural, e nos sentimos vendo uma cena de nosso cotidiano. Além disso, os atores e atrizes conseguem criar personagens tão complexos que transcendem o conceito de “vilão” e “vilã”. Vale o destaque para a química incrível entre Regina Casé e sua filha em cena, Camila Márdila.

the_second_mother_still

O cuidado da produção é visto especialmente nos detalhes. Um exemplo excelente é o fato de vermos Fabinho usando camisas de futebol americano para dormir, e posteriormente vermos Val usando camisas semelhantes, porém bem mais surradas, indicando que ela usa as roupas velhas do garoto.

Muylaert demonstra um controle completo da linguagem cinematográfica, alternando entre linhas de roteiro marcantes (“eles nos oferecem coisas porque esperam que a gente negue, é só por educação”) e cenas mudas eloquentes. A habilidade da diretora também é demonstrada no uso de alegorias visuais, como o zoom na escada que leva ao piso superior e o ótimo arco narrativo que envolve a piscina. Utilizando-se de toda essa capacidade, a diretora traça com delicadeza o paralelo claro das figuras maternas presentes no filme. Como “mãe é quem cria”, Val escolheu quem seria seu filho. Todo o desdobramento do filme parte dessa premissa, e os resultados são agridoces e muito satisfatórios. Se cabe uma crítica ao filme, é exatamente ao abandono de um final mais implícito, ambíguo e rico, com o fechamento do arco da piscina, em prol de algo mais explicado e claro para o público.

regina-case-em-cena-do-filme-que-horas-ela-volta-1438879797122_956x500

Outro ponto trabalhado com primor no longa é a questão da desumanização das empregadas domésticas. A chefia não chega a destratar, mas coloca seus empregados em um limbo de atenção desconcertante; é um não-existir que infelizmente nos parece natural, mas que é desconstruído e exposto quando vemos a situação do ponto de vista da empregada doméstica. Nesse ponto, “Que Horas Ela Volta?” funciona como uma vingança contra 50 anos de novelas que usaram as empregadas como alivio cômico ou fonte de estranheza para a classe média se divertir, como animais de zoológico dentro de jaulas sociais.

Desconstruindo o “ela é praticamente da família” com a realidade de um vínculo hierárquico, “Que Horas Ela Volta?” é um retrato competente e de alta qualidade do cenário social brasileiro, principalmente no que tange as empregadas domésticas. Ao final da exibição, com comentários positivos de todos ao meu redor, “Que Horas Ela Volta?” vai deixando a certeza de que o Brasil está bem representado no Oscar de 2016.


Um comentário sobre “Que Horas Ela Volta? (2015)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s