Referência: Hannibal – 1ª, 2ª & 3ª Temporadas

“Hannibal” é um milagre. Embora diversos de nós ainda não tenhamos aceitado o cancelamento da série, quando pensamos que essa era uma série artística sobre canibalismo que passava na TV aberta estadunidense, a própria existência dela era altamente improvável – e a continuação dela por três anos, inacreditável. Sem audiência relevante e sem ganhar grandes prêmios, a série se sustentou por três anos somente em sua qualidade irrefutável. Mas agora o jantar acabou, e é hora de juntarmos os restos depois do episódio final de “Hannibal” com uma visão geral da série, uma retrospectiva dos anos anteriores e um breve comentário de seu fim.

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SOBRE A SÉRIE (ou “APERITIVO”)

“Hannibal” adapta o livro “Dragão Vermelho”, escrito por Thomas Harris, e conta a história de Will Graham, que tem a capacidade de sentir um nível alto de empatia com serial killers, o que por sua vez permite que ele pense como eles pensam. Quando um caso desafia a agência, Will é chamado para trabalhar novamente para o FBI em um caso sanguinolento que o põe em contato com o sofisticado e intrigante psiquiatra Hannibal Lecter.

hannibal-03Com o ritmo policial em segundo plano para valorizar uma história de suspense e horror, a série se destacou imediatamente na programação do canal estadunidense NBC. O visual do programa é singular, e com frequência esquecemos que estamos vendo uma série na TV e não um filme. Além disso, a temática canibalística da série, e a maneira que ela é tratada, tornou-a um prato que não atende a todos os gostos. Ainda assim, quem conseguiu manter em mente que todo (aquele volume absurdo de) sangue é “de mentira”, e que os órgãos temperados, assados, fritos e deglutidos não são humanos testemunhou uma das maiores séries da história da TV aberta dos EUA.

E a série é extremamente ousada não só no seu tema principal (o que já seria louvável), mas também na sua execução. Não são poucos os momentos na série que te deixam com uma cara de “…quê” enquanto você tenta interpretar aquela cena que teve um caleidoscópio de corpos, ou aquela outra com um diálogo que misturou pintores renascentistas, homicídios brutais e culinária. “Hannibal” foi uma série que não só chamava a sua atenção, como a exigia para que se pudesse entender o que estava acontecendo – outro fator que determinou a baixa audiência no mercado fast-food que é a TV aberta.

Outro ponto de sucesso absoluto é o elenco. Mads Mikkelsen é Hannibal Lecter, caracterizando o personagem de forma mais profunda até mesmo que Anthony Hopkins. Hugh Dancy retrata um Will Graham com tantas camadas que suas ações, às vezes complexas e contraditórias, fazem sentido no contexto de seu personagem. Todo o elenco de apoio, que conta com nomes como Laurence Fishburne e Gillian Anderson (nossa eterna Scully), estão em papeis tão cativantes que assistiríamos séries só com eles.

hannibal-04Se você não conhece a série, sua hora chegou: vá e veja. Caso ainda não esteja convencido, seguem comentários das três temporadas (de somente 13 episódios cada) de “Hannibal”. Caso você vá parar por aqui, vou ser legal e trazer a conclusão do texto agora:

“Hannibal” é uma série deliciosa, embora pesada e de difícil digestão. Embora a primeira temporada mais sugira do que mostre, as temporadas seguintes não se restringem dessa forma, e é bom assistir seus episódios com espírito elevado e estômago estável. Ainda assim, sua abordagem artística ousada, sua direção competente, suas atuações incríveis e até mesmo uma trilha sonora digna de grandes filmes compõem não só um ótimo show, mas uma das grandes obras artísticas da TV americana, junto à nomes como “Breaking Bad” e “Mad Men“. Enquanto nos retiramos da mesa e o sabor agridoce do que testemunhamos nos acompanha, sabemos que não vimos só TV: nós vimos arte. Viva a TV do século XXI.

SOBRE AS TEMPORADAS ANTERIORES (ou “PRATO PRINCIPAL”)

Obs.: o comentário de cada temporada terá referências a acontecimentos de temporadas anteriores. Assim sendo, se não viu a 1ª temporada e não quer spoilers, não leia sobre a 2ª, e assim por diante.

Poster da primeira temporada.
Poster da primeira temporada.

A primeira temporada de “Hannibal” nos apresenta o contexto da série que descrevi acima, e desenrola em volta do assassinato de moças praticado por Garrett Jacob Hobbs, e a busca do FBI por esse homem. Enquanto isso, Will Graham (Hugh Dancy) começa a ser atendido pelo doutor Hannibal Lecter (Mads Mikkelsen), visto que o suporte que tem dado em outros casos no FBI lhe é muito caro mentalmente. Mesmo aqui já podemos ver o que daria a série seu séquito de seguidores apaixonados: atuações intensas, personagens complexos e moralmente ambíguos e um visual narrativo único. A criatividade em relação aos (poucos) crimes que são resolvidos nesta temporada também é louvável. O mais importante é que pudemos notar imediatamente que “Hannibal” não seria mais uma série no formato “cara especial ajuda FBI mas tem seus próprios problemas a resolver”. Isso era algo diferente – e, olhando em retrospecto, algo além.

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Poster da segunda temporada.

A segunda temporada retoma o fim da primeira, com Will Graham preso por aparentemente ser o Assassino de Chesapeake. Agora sabendo a real natureza de Hannibal, após este armar para ele, Will passa a orquestrar sua saída e a derrota de Hannibal. Neste segundo ano da série, temos uma dramática mudança no relacionamento de Will e Hannibal: após os dois tornarem-se amigos íntimos no ano anterior, subitamente uma dinâmica de gato-e-rato se estabelece. Enquanto os papeis de cada um mudam ao longo da temporada, Will e Hannibal se aproximam e se compreendem mutuamente cada vez mais, preparando uma relação quase simbiótica que culmina no episódio final bizarro, extremamente violento, nível Game of Thrones de mortes desta fase.

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Poster sinistramente animado da terceira temporada.

A terceira temporada traz a perseguição internacional à Hannibal Lecter, mas é tudo menos o que você esperava de uma premissa assim. Os primeiros quatro episódios da temporada são lentos, com parte da audiência reclamando da falta de ritmo e psicodelia exagerada dos capítulos. Ainda assim, é possível vislumbrar um crescimento gradativo da tensão, e quando o ápice finalmente chega, dura três episódios. É um clímax contínuo que faz a espera valer a pena. O episódio 7 da 3ª temporada (“Digestivo”) traz um novo momento para série, que segue em uma direção completamente diferente na sua segunda metade – trazendo finalmente o “Dragão Vermelho” para a doentia dança de Will e Hannibal.

O que culmina em…

O EPISÓDIO FINAL (ou “SOBREMESA”)

Se você ainda está lendo, creio que, além de persistente, você a) está em dia com a série ou b) não liga para spoilers. Assim sendo, vamos fazer um comentário rápido sobre o que possivelmente foi o melhor episódio final da história da TV aberta estadunidense.

Vamos falar de “The Wrath of the Lamb”.

hannibal-02Como o nome sugere, o “cordeiro” (que nos episódios anteriores foi estabelecido ser Will Graham) está enfurecido e no limite de sua estabilidade mental. E não é para menos: depois de ser enquadrado como serial killer, ter encefalite, ser esfaqueado, jogado de um trem, quase ter perdido o próprio rosto e ver esposa e filho escapando da morte por um triz, Will está meio de saco cheio disso tudo.

Assim sendo, em um plano arquitetado para matar dois psicopatas com uma cajadada só, Will convence Jack Crawford (Laurence Fishburne) a fingir que Hannibal fora solto para atrair o Dragão Vermelho (Richard Armitage, o Thorin Escudo-de-Carvalho da trilogia do “Hobbit”). Jack, que só tem em mente matar Hannibal, concorda, concluindo que Hannibal mataria o Dragão e eles matariam Hannibal em seguida – o que é um plano completamente imbecil, principalmente considerando que da última vez que tentaram algo semelhante, o próprio Will os traiu.

Will, por sua vez, só quer matar Hannibal e pronto, imaginando que o psiquiatra não daria conta do Dragão Vermelho – o que é uma ideia que provavelmente dará errado e fará com que Hannibal fuja, e no fundo Will Graham sabe disso.

E, é claro, é exatamente isso que acontece.

O que se dá a seguir são duas cenas de ação maravilhosas que nos dão nosso último vislumbre de Jack Crawford, bem como o destino da doutora Alana Bloom (Caroline Dhavernas) e sua esposa Margot Verger (Katharine Isabelle). A última sequência consiste do esperado combate entre Lecter, o Dragão e Graham, onde o destino dos três – e da série – é selado, com uma última cena para entrar na história. A série é bem amarrada, e quando os créditos sobem, chegamos a conclusão que simplesmente não haveria um final melhor possível – embora o criador e produtor-executivo Bryan Fuller (da minha amada “Pushing Daisies”) tivesse como puxar uma quarta temporada (já planejada antes da série ser cancelada) dali.

Ah, na verdade esta não é a última cena… Não é mesmo, doutora Bedelia DuMarier (Gillian Anderson)?

hannibal-07“Hannibal” é uma série deliciosa, embora pesada e de difícil digestão. Embora a primeira temporada mais sugira do que mostre, as temporadas seguintes não se restringem dessa forma, e é bom assistir seus episódios com espírito elevado e estômago estável. Ainda assim, sua abordagem artística ousada, sua direção competente, suas atuações incríveis e até mesmo uma trilha sonora digna de grandes filmes compõem não só um ótimo show, mas uma das grandes obras artísticas da TV americana, junto à nomes como “Breaking Bad” e “Mad Men“. Enquanto nos retiramos da mesa e o sabor agridoce do que testemunhamos nos acompanha, sabemos que não vimos só TV: nós vimos arte. Viva a TV do século XXI.


6 comentários sobre “Referência: Hannibal – 1ª, 2ª & 3ª Temporadas

  1. Estou comentando esse post sem terminar de ler por motivos de: não terminei de ver. Sim, sou a pessoa mais atrasada do mundo com séries e filmes, rs.

    Mas, é… Apesar de todos os fatores “contra” a continuidade, eu não me conformo com o cancelamento de Hannibal.

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