Na Mira do Chefe (2008)

“Talvez o inferno seja isso: o resto da eternidade na merda de Bruges.”

19872377.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxTítulo: Na Mira do Chefe (“In Bruges”)

Diretor: Martin McDonagh

Ano: 2008

Pipocas: 9/10

O humor britânico, por si só, já é peculiar. O tempo das piadas é diferente, e a entrega das piadas (as chamadas “punchlines”) não são ditas com ênfase ou gritadas, como normalmente vemos nos filmes e séries estadunidenses. Na comédia britânica, as piadas são lançadas no meio de um diálogo, o que demanda mais atenção. Quando falamos de humor negro, então, o povo da Rainha vai além, e cruza barreiras que nos fazem nos perguntar “o que diabos eu estou vendo”. Com um elenco enxuto e excelente, história envolvente e um título traduzido ridículo, “In Bruges” traz o que o humor negro britânico tem de melhor e pior em um filme completamente envolvente.

08brug600Ray (Colin Ferrel) e Ken (Brendan Gleeson, o Olho-Tonto de Harry Potter) são dois assassinos de aluguel que, após seu último trabalho dar errado, são enviados por seu chefe Harry (ironicamente interpretado por Ralph Fiennes, ex-Lord Voldemort) para a cidadezinha de Bruges, na Bélgica, para esperarem a poeira abaixar e receberem seu próximo contrato. Lançados por no mínimo duas semanas em uma cidade pacata, Ray começa a variar entre acessos de fúria e depressão, o que põe em jogo a identidade dos criminosos – e, consequentemente, suas vidas.

Ignorem o título em português. Estou separando um parágrafo somente para isso: ignorem o título traduzido. Eu fiquei sete anos sem ver esse filme só porque achei o título imbecil. Foi preciso um fórum estrangeiro me indicar esse filme com o nome original para que eu parasse para ver. Certo, prossigamos.

cinema_materiaaO roteiro de “In Bruges” (indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original em 2009) é muito simples; não há grandes mistérios a serem resolvidos. A cena na qual vemos o crime que dá errado é a mais intensa do filme, e imediatamente entendemos o motivo de Ray – em seu primeiro trabalho como assassino – estar no estado que o encontramos. A grande maestria do roteiro está em equilibrar com uma precisão milimétrica a dose e o momento do humor com as cenas e situações sanguinolentas (que, vai por mim, são diversas).

As âncoras deste roteiro simplificado são Ferrel e Gleeson. Ambos os atores foram indicados ao Globo de Ouro por suas performances em 2009, e Ferrel acabou levando. Gleeson entrega um Ken culto, religioso e moralmente inabalável à sua própria maneira, embora seja um assassino de aluguel. A abrangência de emoções que o ator consegue entregar é crível e envolvente.

In-BrugesAinda assim, o real protagonista do filme é o Ray de Colin Ferrel. Em um papel que obviamente colocou bastante sobre os ombros do ator, ele pode encarnar o personagem no qual ele se vê mais confortável: um homem mentalmente perturbado, com problemas de vícios diversos (nesse caso, a ira e a agressividade), que busca dentro de si um meio de ser melhor – o que, como os tabloides esfregam na nossa cara, é basicamente a definição de Colin Ferrel.

A sobreposição do humor e da violência é bem clara principalmente devido ao fato de o filme se passar no Natal. Foi noticiado que o prefeito da pequena cidade pediu que os moradores deixassem a decoração de Natal até março para que o filme conseguisse manter essa atmosfera, o que é completamente entendível no produto final: Bruges é um personagem à parte, que transpira (no frio?) inocência e bucolismo. Essa cidade de pouco mais de 115 mil habitantes, “saída direto de um conto de fadas”, é manchada pela brutalidade de homens feridos que ferem.

iemrwuso8witpjvzgvckO diálogo entre violência e pureza encontra eco dentro da trama em si, como no crime citado, e a perda da inocência acaba sendo o gatilho de todo o terceiro ato e o subsequente final do filme. De forma mais que satisfatória, “In Bruges” tem uma hora e quarenta minutos de uma violência culposamente divertida, que não se priva de linguagem e palavreado explícito (média de 1.18 “f*ck” ou derivado por minuto – sério), que ressoam ainda mais obscenos naquele contexto, para entregar o que pretende. Se este viés lhe agrada, “Na Mira do Chefe” (…argh) é o filme para você.


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