Batman: Uma Morte Em Família (1988-1989)

Que tal ligar 0300-SIM para matar o Robin? Foi com essa premissa “Você Decide” que foi estabelecido o arco “Uma Morte Em Família”, publicado entre 1988-1989. Aqui, o Coringa mais uma vez arrebenta alguém próximo ao Batman, só que desta vez sem o propósito de atingir o Batman – ou qualquer propósito concreto, na verdade.

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No arco composto por quatro histórias, o Robin Jason Todd é afastado de suas funções de super-heroi por Batman após perder o controle e agir impulsivamente em uma missão. Revoltado e em conflito, Todd vai para seu antigo apartamento e descobre que sua mãe morta não era realmente sua mãe; a verdadeira seria uma entre três mulheres em um antigo caderno de seu falecido pai. As três têm nome começado pela letra S – a única letra visível na certidão de nascimento de Todd na parte de filiação materna. Com esta (porca) informação em mãos, Todd vai ao mundo buscar sua mãe.

Enquanto isso, o Coringa decide vender um míssil de grande destruição para um grupo terrorista no Oriente Médio para descolar uma grana, o que acaba por colocá-lo em rota de colisão com Todd – e, consequentemente, com o Batman.

É importante constar que, apesar de se passar logo após “A Piada Mortal”, esta história não é nem de longe tão boa quanto sua antecessora, e o motivo que é a raiz do problema é bem fácil de identificar: Batman sai de Gotham. O grande trunfo e diferencial do Homem-Morcego é que ele é o heroi da sua cidade, e não é à toa que as melhores histórias do personagem se passam dentro dos limites da cidade gótica. Levar Batman para uma escala global é deixar um peixe fora d’água.

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Batman versus Lady Shiva.

Isso não significa que a história fique automaticamente ruim, mas a torna consideravelmente mais difícil de ficar interessante. Por isso que o Batman sempre tem que ganhar algum tipo de poder ou trazer as brigas para o seu território quando é posto no contexto da Liga da Justiça: contextualizar um heroi sem poderes, embora muito bem-treinado, em um mundo repleto de inimigos e desafios acima do seu nível de combate dificulta trabalhar o personagem.

E é aí que tropeçamos. O roteiro de Jim Starlin não chega nem perto de compensar as dificuldades impostas por termos Batman no Oriente Médio. A primeira metade do arco é risível; a quantidade de coincidências que levam Robin e Batman a estar na mesma cidade vigiando o mesmo hotel ao mesmo tempo é ridícula, e o roteiro parece perceber isso de vez em quando. Na questão do hotel, por exemplo, um quadro nos explica que o Blu Hotel é o único hotel realmente bom de Beirut – mas isso não explica como duas personagens essenciais para a trama estão em Beirut ao mesmo tempo, sendo buscadas por motivos diferentes.

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Todd sendo um babaca de novo.

Não obstante, a terceira possível mãe de Todd está exatamente em um país próximo, e é buscada pelo Coringa como uma possível aliada – ao mesmo tempo que a Dupla Dinâmica vai atrás dela. É mais ou menos nesse ponto da história que você desiste de levá-la a sério.

Como se não fosse o suficiente, o Coringa desenhado por Jim Aparo tem uma cara de cavalo que fica completamente caricaturesca, não combinando com o tom grave e internacional que a história precisa. Isso fica óbvio principalmente pelo fato de o Coringa passar grande parte da história sem maquiagem, o que torna ele um homem completamente deformado e imediatamente reconhecível em qualquer parte do mundo – o que nos faz perguntar porque diabos ele tirou a maquiagem, se esse era o caso.

A única explicação para esta história ter saído é porque Dennis O’Neil, editor da revista na época, notou que os leitores não gostavam de Jason Todd, e percebeu que seria necessário tirá-lo de cena. Sem saber como fazê-lo, teve a ideia de pô-lo em perigo mortal no final da segunda edição e deixar os leitores votarem via telefone se deviam matá-lo ou não. Com apertada votação, 51% dos leitores decidiu por matar Todd – e esse foi o fim do Robin, até seu retorno definitivo como Capuz Vermelho em 2005 (o que acho bem triste; primeiro porque Todd era um personagem muito irritante, e segundo porque sua morte era uma parte enriquecedora no cânone e na formação do Batman).

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Cabe dizer ainda que todo o plano do Coringa é idiota. Para quê vender um míssil para alguém no Oriente Médio? Não tinha nenhum banco que pudesse ser roubado para conseguir esse dinheiro? Não tinha nenhum cliente local? Não podia mirar esse míssil em algum lugar e pedir dinheiro em troca de não dispará-lo? E o Coringa ainda diz ter medo de ser reconhecido como culpado da morte do Robin, em um cânone que ele torturou a filha e o próprio comissário de polícia; é sério que agora ele está preocupado com sua ficha criminal?

Não feliz com essa zona toda, os Jims autores deste arco ainda decidem jogar terra em “A Piada Mortal”, pondo mais uma vez o Coringa e o Batman numa situação de vida e morte na qual o Coringa toma um tiro de seu capanga (!) que disparava sua arma às cegas (!!) num helicóptero (!!!). O Batman então salta do helicóptero, mergulhando no mar, enquanto diz “adeus, velho inimigo”. Imediatamente depois ele pede que procurem o corpo do Coringa, dizendo “mas eu sei que não vão encontrar nada. O fim entre o Coringa e eu é sempre assim: em aberto”.

E acaba a revista.

Juro.

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*suspiro* O Coringa embaixador…

Apesar da minha óbvia frustração que você também já deve estar sentindo, leitores, esta é a continuação canônica de “A Piada Mortal“, talvez devendo ser chamada de “A Piada Sem Graça”. Tirando a cena clássica que Coringa espanca Jason Todd com um pé-de-cabra, a única coisa interessante na revista é a importância dela para a mitologia do Batman – que se tornou bem mais fechado e resistente depois dessa perda – e para a história dos quadrinhos como um todo. Do contrário, você pode pular para o próximo arco sem nenhum prejuízo, só entendendo porque o Batman está um pouco mais triste do que o normal – mas duvido que ele esteja mais triste do que nós que tivemos que ler uma história na qual o Coringa vira embaixador na ONU.

Sério.

Chega, né?

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Batman: Uma Morte em Família


8 comentários sobre “Batman: Uma Morte Em Família (1988-1989)

  1. Não podemos esquecer que Jason estava marcado para morrer desde antes de ser introduzido no Universo do Morcego. A primeira menção do personagem é em The Dark Knight Returns, onde o Batman comenta que a é culpa dele a morte do 2° Robin.

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