A Outra História Americana (1998)

Título: A Outra História Americana (“American History X”)

Diretor: Tony Kaye

Ano: 1998

Pipocas: 9/10

O ano era 1998, e ia para os cinemas um filme que, verdade seja dita, incomoda bastante. A Outra História Americana (“American History X”) gira em torno de dois irmãos, Dereck, o mais velho (Edward Norton) e Daniel Vinyard, o mais jovem (Edward Furlong). Eles moram em Venice Beach, California, onde, já há algum tempo, acontece um constante crescimento no número de skinheads. Um grupo de jovens neo-nazistas influenciados por um homem mais velho que articula o recrutamento, a doutrinação, e as ações vandalistas do grupo; seu nome é Cameron Alexander (Stacy Keach). Dentro desse ambiente, logo nos primeiros minutos do filme, é sabido que Dereck está saindo da prisão, e Daniel está sofrendo uma represalha sobre ter escrito um ensaio cujo título é “My Mein Kampf. Atordoados com isso, o professor (um judeu) e o diretor da escola (um afro-americano), respectivamente Murray (Elliot Gould) e Dr. Sweeney (Avery Brooks) resolvem tomar alguma medida que venha a prevenir Danny de seguir os mesmos passos de Derreck. Sweeney propõe que ele mesmo daria aulas de história ao jovem e logo pede que ele escreva um ensaio sobre como a convivência com o irmão mais velho o influenciara na sua maneira de pensar.

Daniel volta para casa e encontra o irmão, que acabara de sair da prisão. Dereck vai, aos poucos, dando sinais de que está regenerado e de que já não concorda mais com as coisas que eram verdadeiras para ele antes de ter ido para a prisão, pois ele já está completamente fora do grupo neo-nazi de Cameron e fará o esforço que for preciso para afastar Daniel disso também.

A centralidade do personagem de Edward Norton, que inclusive se sobrepõe ao de Edward Furlong, é honrada com uma atuação brilhante (exceto nas cenas de choro, talvez aqui uma opinião bastante pessoal: Norton não soube chorar), e um detalhe sobre a entrega de Norton ao papel é o fato de ter ganho alguns quilos de massa muscular para o personagem. A trajetória de Dereck Vinyard é anti-heroica, de certa forma, pois com o pai, que era bombeiro, assassinado a tiros enquanto trabalhava numa vizinhança negra, o rapaz assume as despesas da casa, e junto disso intensifica sua atuação no grupo neo-nazista, tendo a função de pregar o evangelho da supremacia branca americana para jovens da região. Ele é articulado e sabe discursar, sabendo disso, e somado ao fato de o rapaz poder usar sua experiência pessoal como recurso retórico, Cameron contava com Dereck para liderar o grupo “publicamente”. A prisão fez dele um ícone, um herói entre os skinheads ao mesmo tempo em que decretou a decadência social de sua família (formada por uma mãe doente, Daniel, e duas irmãs menores de idade), pois, uma vez preso, não poderia mais sustentá-los.

É importante ver como o ódio do grupo, extremamente regionalizado, é facilmente justificável com dados e fatos que correspondem à realidade, apesar de serem tão cruéis quanto injustos e hipócritas em alguns casos (na grande maioria). Existe um pragmatismo por trás do discurso de todos os envolvidos com o grupo que é implacável, essa retórica do ódio é o que convence os jovens de que há algo muito errado em pertencer a uma minoria, e que essa minoria já nasce com uma predisposição para estorvar a sociedade. É justamente nesse ponto em que se destaca a mão do diretor em retratar o neo-nazismo com muita seriedade, assim como falamos recentemente na resenha de A Onda, a sociedade moderna tem a impressão de ter superado por completo o nazismo e, portanto, há a falsa de impressão (ou cinismo) de que o que aconteceu (e acontece, em menor proporção hoje) não é tão dramático e absurdamente injustificável como dizem as páginas da história recente.

Por fim, o visual do filme chama muita atenção, principalmente por todos os constantes flash backs usarem a película preto e branca. A ideia visual é criar o efeito belo/bizarro em que, por exemplo, cenas que deixam o expectador extremamente desconfortável são esteticamente bem trabalhadas, principalmente em relação ao contraste de cores claras e escuras e à movimentação, se valendo, inclusive de um slow motion certeiro. O que é realmente irônico na direção é ver sua pegada original e bastante firme e pensar que Tom Kaye não queria seu nome entre os diretores e sim a inscrição Humpty Dumpty. Em conclusão, é preciso dizer que a mensagem desse filme  é bastante séria e ela é passada exatamente dessa forma, é esperado da audiência que ela sinta algum desconforto perante essa obra como um todo.


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