Referência: Woody Allen – Risadas Genuínas de Falsos Documentários

O cinema documentário faz parte de obras não-ficcionais, mas não é reduzido apenas ao contraste “ficção vs. não-ficção”. Considerar o gênero como a representatividade fiel do real é algo um tanto equivocado, o que não tira sua credibilidade quando se propõe como um documento. Dentre as diferentes formas de expressão do documentário ao longo de sua história (poético, expositivo, direto, cinema verdade, reflexivo e performático) podemos perceber a presença de elementos ficcionais em diversas delas. Há tanto a possibilidade de os participantes se fabularem e se reinventarem, por conta da presença da câmera, quanto da inclusão deliberada de ficção. Os personagens do “cinema verdade” de Jean Rouch (como os de “Eu, um Negro”, de 1958) são um bom exemplo da influência mútua que foi surgindo entre filme documentário e filme ficcional. Isso torna igualmente importante e encantador o exercício de atentar para os detalhes da prática do filme documental no âmbito da produção, que foi assumindo técnicas e estilos próprios nos seus registros.

Ainda nessa discussão, o surgimento do falso documentário contribuiu de certa forma para esclarecimentos na relação entre documentário e ficção, ao apresentar com registro documental narrativas e personagens diretamente inventados. Assim, o falso documentário, ou mockumentary,  é caracterizado por ficções marcadas pela utilização de códigos convencionais do documentário para realizar a paródia do gênero ou, até mesmo, o trote (quando o caráter ficcional não fica em evidência).

Em meados do ano passado, “Men Of Crisis: The Harvey Wallinger Story”, um curta-metragem de Woody Allen no formato de falso documentário nunca exibido publicamente, ficou disponível online e tirado do ar logo depois. Justamente por ter sido engavetado antes mesmo de ir ao ar, o curta sempre gerou curiosidade. Ao longo de sua carreira, Allen utilizou mais de uma vez a linguagem do falso documentário, criando tanto resultados intrigantes e rebuscados quanto simples e despretensiosos. Aproveitamos que “Men Of Crisis…” está novamente disponível no YouTube e separamos três comédias de Woody Allen que apresentam, em diferentes níveis, características de falso documentário.

 

Um Assaltante Bem Trapalhão (1969) (“Take The Money and Run”):

Estreia de Woody Allen como diretor (sendo também protagonista e co-roteirista da obra), “Um Assaltante Bem Trapalhão” (não, não é um filme do Didi & Cia) conta a história de Virgil Starkwell, um rapaz que desde a infância teve problemas com autoridades e que não conseguia ser bem-sucedido em praticamente nada que tentava realizar. Seu complexo de inferioridade e suas constantes tentativas de ser aceito (características que veremos em outro filme dessa seleção) existem muito por conta de suas frustrações, que vêm de todos os lados. Bons exemplos de sua desdita são a relação difícil com seus pais, seus sonhos não realizados e suas tentativas de roubo, que são tão incompetentes quanto seus planos de fuga, como o em que usa uma arma de sabão… Em um dia de chuva.

Allen utiliza a voz em off de um narrador onisciente (e também a voz de seu próprio personagem em alguns momentos), fotografias antigas e alterna cenas dramatizadas por Virgil com várias entrevistas dadas por seus pais, ex-professores, sua esposa, alguns conhecidos e até por ele mesmo. O resultado é o cômico falso documentário sobre a figura de Starkwell, figura que ficou em evidência na mídia por, ainda jovem, já ser procurando pela polícia em seis estados, “por agressão, roubo à mão armada e posse ilegal de uma verruga”. Ele se tornou um desajustado, carente e solitário, que nem no mundo do crime conseguia se enquadrar. Além disso, era colocado à margem por ser considerado o epítome do fracasso em plena sociedade dos anos dourados do sonho americano. Quando Virgil fica famoso por seus atos criminosos, a própria ideia de sucesso é posta sob crítica.

O enredo em si é posto em segundo plano, com as piadas surgindo uma atrás da outra, oscilando entre as hilárias e as fracas, despretensiosamente apresentadas em uma colagem de esquetes rápidas. Tal ritmo se deve muito pela experiência de Allen na stand up comedy (comédia em pé), aliado ao nonsense (“sem sentido”), que tem grande parte no efeito cômico. O assalto a banco que não acontece por conta de uma caligrafia ruim, o fato de a tortura na prisão ser ficar trancado num porão escutando o discurso incessante de um vendedor de seguros, e dois grupos rivais tentando assaltar um mesmo lugar são alguns dos momentos absurdos e engraçados. É bacana perceber a influência desse estilo de mockumentary em séries de TV contemporâneas, como a divertidíssima “The Office” e a maravilhosa “Parks  and Recreation”.

A performance de Allen explora bastante a comédia física, com claras influências de grandes nomes. A cena em que Virgil está se arrumando para o encontro com Louise (Janet Margolin) nos cativa com os trejeitos à Charles Chaplin e os óculos utilizados pelos pais do protagonista nas entrevistas deixam a homenagem a Groucho Marx, amigo do diretor e uma de suas inspirações na comédia.

Pais de Virgil e seus óculos Groucho Marx.

Como é bem típico no trabalho de Allen, existem muitas outras referências, o que inclui um ex-condenado chamado Fritz, que comandará um roubo cinematográfico (uma homenagem a Fritz Lang), e um grupo de prisioneiros acorrentados uns aos outros, que parodia os do filme “Rebeldia Indomável” (Cool Hand Luke, 1967) e protagoniza uma jocosa fuga.

Ao fim da exibição de “Um Assaltante…”, nota-se como o trabalho de Allen na direção foi se refinando com o tempo, o que não tira o mérito dessa comédia leve e despretensiosa de cumprir seu objetivo de divertir.

 

Men of Crisis: The Harvey Wallinger Story (1971):

Por muito tempo, essa foi uma obra de Allen da qual muitos falavam, mas poucos tinham visto. Levando apenas dez dias para escrever o roteiro do filme e aproveitando algumas semanas de folga para filmá-lo na Universidade de Columbia, Allen fez esse curta-metragem de 26 minutos no formato de falso documentário. Era o primeiro episódio do que seria uma série a ser exibida pela rede de televisão pública PBS. “Seria”, do verbo “acabou não sendo, porque a PBS amarelou”.

“Men of Crisis: The Harvey Wallinger Story” (algo como “Homens de Crise: A História de Harvey Wallinger”) é uma representação caricaturesca e extremamente ácida da administração durante o governo do presidente republicano Richard M. Nixon, citando seus outros principais representantes: o vice-presidente Spiro Agnew; o secretário de Justiça John N. Mitchell; entre outros nomes. Já havia políticos desse governo envolvidos em acusações de corrupção à época do filme e, posteriormente, ficariam marcados pelo escândalo Watergate, que levou Nixon à renúncia, em 1974. Ao lado das reais imagens de arquivo de Nixon estão as do personagem fictício Harvey Wallinger (interpretado por Woody Allen), abertamente inspirado em Henry Kissinger, então secretário de Estado do governo. Assim como o real Henry Kissinger, Wallinger era  braço direito de Nixon e parte da essência do conservadorismo do partido no poder,  além de apresentar uma cínica tranquilidade quanto a violar direitos e cometer crimes contra a humanidade.

MEN

Certamente a edição executada por Eric Albertson foi pensada de forma conjunta com o diretor, pois é na sincronia perfeita do texto, narrado em off por Reed Hadley, com as imagens reais dos políticos, que a deliciosa e cruel ironia se revela. Do republicano racista de formação e depois arrependido George Wallace (do terno discurso “segregação hoje, segregação amanhã, segregação para sempre”) aos democratas omissos em deter a escalada da ofensiva na Guerra do Vietnã; a montagem debochada não deixa ninguém sair ileso. As entrevistas com personagens fictícios falando sobre Wallinger (com ótimas participações de Louis Lasser e Diane Keaton) arrematam o tom documental e sarcástico.

Através das declarações absurdas de Wallinger, Allen também faz uma crítica mordaz à sociedade estadunidense. As pérolas do roteiro ficam em suas falas sobre por que prefere o sexo com culpa e ao explicar a declaração absurda de Nixon de que não queria acabar a Guerra do Vietnã de um modo que perdessem a paz ao invés de ganhá-la [note a brincadeira com “peace” e “piece”]:

O que o Sr. Nixon quer dizer é que é importante ganhar a guerra e também ganhar a paz. Ou ao menos perder a guerra e perder a paz. Ou ao menos ganhar parte da paz, ou dois pedaços, talvez, ou perder alguns pedaços, mas ganhar um pedaço da guerra. A outra alternativa seria ganhar um pedaço da guerra ou perder um pedaço do Sr. Nixon”, afirma Wallinger. Em seguida arremata dizendo que decidiram bombardear o Laos pela razão estratégica de não gostarem de como se escrevia o nome do país.

Mesmo sendo uma de suas primeiras obras, “Men of Crisis…” já contém a essência do humor inteligente e ousado de Woody Allen. A exibição do especial iria coincidir com o início da campanha de Nixon pela reeleição, o que fez com que PBS cancelasse a exibição da obra, com receio de sofrer represálias e corte de orçamento por parte do governo. O episódio fez com que Allen ficasse todos esses anos afastado de projetos na TV (com a exceção de um telefilme nos anos 1990) até que, recentemente, anunciou sua participação em um projeto para uma série televisiva (na verdade, uma encomenda para a internet feita pela Amazon).

Abaixo, o especial disponível online, infelizmente ainda sem uma versão com legendas em português (apenas em espanhol). Atualização: como o vídeo anterior foi retirado do YouTube, postamos um novo link.

 

Zelig (1983) (“Zelig“):

Esse filme é o auge da paródia cinematográfica de Allen ao gênero documentário (principalmente um estilo antiquado de cinejornal) e também uma de suas obras-primas.  Ambientado nos anos 1920/30, o longa apresenta a história de Leonard Zelig, um homem fechado e inseguro que passa de completo desconhecido ao status de fenômeno da década. Tudo começa a mudar quando descobrem a intrigante condição de Zelig transformar sua aparência e sua personalidade de acordo com as pessoas que o cercam (na presença de um índio adquire traços indígenas, na de um estrangeiro assume seus traços e começa a falar sua língua e por aí vai). Psicólogos, psiquiatras e neurologistas o internam e tentam, em vão, fechar um diagnóstico. Com o tempo a fantástica história cai na mídia e vira o assunto do momento, transformando o protagonista em uma celebridade. Zelig ganha uma dança, músicas (minha favorita é “Você Pode Ser Seis Pessoas, Mas Eu Te Amo”) e o apelido de “camaleão humano” em sua homenagem. A ideia cai logo no consumismo ensandecido e vira mania nacional, vendendo diversos produtos à custa de Zelig.

Através da personagem da doutora Eudora Fletcher (Mia Farrow) vamos descobrindo que a capacidade de Zelig o aprisiona em uma não-existência, com a perda de sua personalidade e até de sua humanidade. Eudora descobre as raízes psicológicas do distúrbio de Zelig, fruto do desejo de ser aceito, amado e de se proteger na multidão. Eis o gancho genial feito por Allen para algo que serve como metáfora para a experiência dos judeus quanto à assimilação dentro de culturas alheias, e vai além, fazendo uma crítica ao falso moralismo, à indústria do entretenimento e ao narcisismo do culto à celebridade. Em tempos de busca desenfreada por likes, chega a ser assombroso como a crise de identidade representada no filme é atual.

ZELIG
Zelig – todos e nenhum ao mesmo tempo.

O trabalho da editora Susan E. Morse e do diretor de fotografia Gordon Willis (de “O Poderoso Chefão” e outras obras de Woody Allen) é primoroso, principalmente ao inserir imagens de Zelig e Eudora em tomadas reais de arquivo com celebridades da época (como na cena com Charles Chaplin) e em momentos históricos importantes, bem marcado pela passagem em que Zelig é assimilado pelo movimento nazista, na presença de Hitler. Segundo o próprio Willis, foram meses selecionando material de arquivo, para depois identificar o que possibilitava esse tipo de montagem, que inspirou a técnica utilizada  em “Forrest Gump: O Contador de Histórias” (Forrest Gump, 1994). Foram selecionadas mais de 30 horas de material de arquivo de fitas antigas, fotografias e emissões radiofônicas somadas à 75 horas de novos planos filmados em preto e branco, os quais eram envelhecidos para combinar com a granulação do antigo. Sem contar a preocupação de utilizar microfones dos anos 1920 na captura dos sons. Um trabalho hercúleo com um resultado sensacional.

Arrematando a engenhosidade desse falso documentário, são incorporadas entrevistas contemporâneas com personalidades e intelectuais da vida real, como a escritora Susan Sontag, o crítico literário Irvin Howe e o historiador John Morton Blum, analisando o fenômeno Zelig e fazendo a ponte com as críticas sociais.

As transformações de Zelig e suas consequências (acusações de poligamia, plágio, extração dentária inútil, dentre outras), rendem momentos muito engraçados, mas também levam o espectador a se conectar com seu drama. Um filme muito rico em estilo e conteúdo, com uma intertextualidade constante e que dialoga, inclusive, com as principais vertentes da psicologia de massas do século XX. Uma obra prima do falso documentário e uma das mais brilhantes realizações de Woody Allen.

 

Já tinha visto algum desses filmes?

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Bom filme, boas risadas e até mais!

gif woody

 


2 comentários sobre “Referência: Woody Allen – Risadas Genuínas de Falsos Documentários

    1. Sim! Dá para ter uma noção do ritmo bacana que ele pode passar para a série. Acho que ele está se sentindo intimidado, porque o mercado de séries hoje em dia é muito competitivo, de grande qualidade e com um público cada vez mais exigente. Vamos ver o que ele vai criar! 🙂

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