Referência: Mad Men – O Fim de Uma Era

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Eu encontrei “Mad Men” deveras tarde. A série já estava no seu hiato da quinta para a sexta temporada quando finalmente venci a preguiça (inerente a séries com mais de dois anos) de começar e, em uma semana de carnaval, comecei a assistir um episódio após o outro em um serviço de streaming. Então vi o próximo. E o seguinte. E todas as temporadas subsequentes.

Alguns, por outro lado, tiveram a sorte (ou azar, dependendo dos seus hábitos televisivos) de pegar a série em sua primeira temporada e acompanhar o seu desenrolar ano a ano. Esses, principalmente, foram os que disseram que uma era terminava quando o fim da série foi anunciado. Essa declaração encontrou eco na crítica especializada e mesmo naqueles que já pegaram o bonde de “Mad Men” andando – como eu. Posteriormente, o próprio criador da série, ao separar a última temporada em duas partes, chamou sua segunda metade de “End of an Era” (“Fim de uma Era”), dando uma pitada de metalinguística pouco humilde ao reconhecer o trabalho incrível que realizou ao longo de sete anos.
Vendo um relato desse – como muitos que eu havia visto pela internet afora -, a primeira coisa que se pergunta é: o que é “Mad Men” e o que dá a série a fama de ser uma das melhores séries da história da TV americana?

“Mad Men” é uma série criada por Matthew Weiner que conta a história de publicitários nova-iorquinos (os “homens loucos” do título) durante uma década, do início dos anos 60 até os idos dos 70. A série gira em torno de Don Draper (Jon Hamm), um diretor de arte genial com fama que o precede, tanto pelos seus talentos quanto por suas obsessões e vícios. Através de Don, conhecemos personagens como Peggy Olson (Elizabeth Moss), uma secretária que busca ser algo mais, e Betty Draper (January Jones), esposa de Don, que por muitas vezes abafa seus próprios desejos e dúvidas em prol de seu casamento e seus filhos – pelo menos inicialmente.

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A pergunta quanto a fama da série é tão justa quanto a primeira, e tem uma resposta simples: tudo funciona em “Mad Men”. Sem exceção: dos figurinos interessantes e cenários ricamente construídos aos personagens que faziam jus às suas paredes, “Mad Men” progrediu de forma irretocável e precisão fria na história de seus personagens. A série não teve medo de descartar alguns deles sem cerimônia, às vezes matando-os fora de cena ou simplesmente levando-os embora do convívio de seus colegas – como a vida teima em fazer de vez em quando. Este distanciamento realista que a série nos impõe sai dos moldes da TV atual, em que se um personagem é popular, sabemos que ele instantaneamente se torna à prova de balas e resistente a mudanças. Em “Mad Men”, a publicidade é uma metáfora constante para mostrar como tudo na vida está sempre em movimento, se transformando e se recriando – muitas vezes apesar de nossa vontade. Vou seguir essa tradição e vou mostrar a série a você, caro cúmplice, através de mudanças.

AS MUDANÇAS NO MUNDO

O mundo no qual a série começa é aquele dos primeiros meses de 1960. Estados Unidos e União Soviética, durante a intensa Guerra Fria, já estavam intensas em sua corrida espacial, que em 1961 lançaria o primeiro homem, o soviético Yuri Gagarin, a orbitar a Terra. A mesma corrida posteriormente colocaria homens na Lua (como visto também no sétimo episódio da sétima temporada, “Waterloo”).

Enquanto isso, no chão, a questão racial nos Estados Unidos se intensifica e figuras como Malcolm X e Martin Luther King aparecem e, posteriormente, são mortos e saem de cena – todos esses atos, assim como o Ato dos Direitos Civis de 1964, têm impacto real nos personagens da série. O assassinato de John F. Kennedy também tem acesso direto à vida dos publicitários e familiares, especialmente durante o 12º episódio da terceira temporada, “The Grown-Ups”.

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O forte sexismo da sociedade também é representado durante toda a série, principalmente nas figuras de Peggy Olson e Joan Holloway (Christina Hendricks), ambas figuras femininas que lutam para ir além do que é esperado e imposto a elas: o cargo perene de secretária, que não raramente inclui serviços indiscretos com clientes e patrões. O fato de Peggy e Joan não se dobrarem e não aceitarem o status quo serve para contrastar principalmente com as várias mulheres na série que cedem à pressão da sociedade – como aquelas (várias) que passam pela cama de Don Draper.

A música também nos mostra o inexorável movimento do tempo. Além das canções da época em cada final de episódio (que vão desde doo-woops da época até “Space Oddity” do David Bowie na última temporada da série), contatos diretos com a música em si também se dão, como no episódio em que Don tenta conseguir a nova sensação do rock, os Rolling Stones, para um comercial da Heinz (temporada 5, episódio 3, “Tea Leaves”).

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Todos esses elementos se desenvolvem com maestria ao longo dos episódios, sempre nos situando onde – ou melhor, quando – nós estamos e, principalmente, mostrando como a geração de Don se distancia cada vez mais do público que um dia precisará conquistar com seus comerciais.

AS MUDANÇAS NOS PERSONAGENS

Os arcos de cada um dos protagonistas da série são claros e crescentes, principalmente os da figura de Don Draper. O personagem, vivido (no sentido mais literal possível) por Jon Hamm, é uma aula de roteiro do início ao fim. Introspectivo e comedido, embora cheio de peculiaridades e vícios, os episódios iniciais nos mostram muito mais a persona que Draper quer mostrar do que quem ele realmente é. A cada revelação sobre o passado do personagem, mais notamos o quão pouco sabemos de fato sobre ele; é uma arte de espelhos e fumaça na qual cada vislumbre só mostra uma peça de um quebra-cabeças que não para de crescer. Quando de fato descobrimos toda a história de Don, as peças se encaixam e lidamos com o seu passado enquanto o próprio faz a mesma coisa em cena – é a narrativa em seu ápice.

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A já citada Peggy Olson passa por suas próprias transformações. Inicialmente contratada como secretária de Don, vemos desde suas primeiras ações que sua personalidade é muito mais reativa do que as de suas colegas de escritório, e já entendemos que ela não irá se contentar com o que lhe é oferecido. O mais interessante de Peggy é como os roteiristas e produtores executivos da série conseguiram trabalhar a personagem fora dos clichês sem perder a naturalidade de sua narrativa; Peggy se apaixona por um homem de poder, como suas colegas, mas lida com sua paixão de uma maneira totalmente diversa, e a evolução de tal relacionamento joga uma sombra que cobre a audiência e a própria até os momentos finais da série.

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Poderíamos nos debruçar ainda sobre diversos coadjuvantes que ganham espaço e intensidade ao longo da série. Roger Sterling (John Slattery) é ao mesmo tempo chefe e uma figura meio paternal, meio fraternal para Don, embora seus arroubos de egocentrismo o tornem um tanto inadequado para tal função. Sua jornada de auto-conhecimento ao longo da série é interessante, principalmente pelo fato de o personagem fazer o caminho contrário de todos os seus companheiros: enquanto todos mergulham gradativamente num cinismo irrefutável, Sterling descobre o mundo exterior a cada nó que desata em sua vida.

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A lista de personagens marcantes é virtualmente interminável. Apenas para fechar o ciclo, fingindo que o número de destaques faz jus a série, temos a Joan Holloway de Christina Hendricks que começa buscando encontrar um homem rico para nunca mais ter que trabalhar e descobre dentro de si, através de intempéries às vezes traumáticas, um potencial para ir muito além disso.

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A dialética entre os personagens e o movimento inexorável dos ambientes nos quais eles estão inseridos é incrível. Não precisamos nos perguntar “por que ele/ela reagiu desta forma?”; quando a resposta não é óbvia é porque um novo desenrolar ainda vai nos levar a algum ponto a frente na linha do tempo da série.

AS MUDANÇAS NAS NOSSAS VIDAS

O canal a cabo estadunidense AMC tornou-se grandemente relevante graças às suas produções originais. Lar de “The Walking Dead”, “Breaking Bad” e “Mad Men” (só), os últimos anos fizeram com que fosse normal o canal levar muitos louros nas premiações; não era incomum terem múltiplos candidatos concorrendo à mesma categoria.

E não foi à toa. Escusando, talvez, a inconsistência na qualidade de “The Walking Dead”, as outras duas séries citadas revolucionaram o modo de se fazer e se assistir televisão, tal qual séries como “The Sopranos”, “The Wire” e “The West Wing” fizeram no passado. A internet, por outro lado, tornou o impacto desses fenômenos culturais muito mais profundo e abrangente do que nos tempos de outrora – até porque, ao contrário do que se tenta pregar às vezes, os downloads não prejudicam os canais pagos.

Falando especificamente de “Mad Men”, a profundidade de todos os seus personagens e o cuidado com que cada trama era tratada – do protagonista ao homem que aparece por 4 minutos na penúltima cena da série, todos eles não só estão lá por uma razão, mas estão com sua própria razão. É maravilhoso poder assistir não só o retrato de uma época, mas o desenrolar de algo semelhante a um livro clássico de literatura em uma roupagem completamente imersiva e magnética – e sem uma cena explícita de qualquer natureza ao longo de toda sua exibição.

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Como me sinto até o momento.

“Mad Men” é um retrato perfeito de uma época, e assim o é por ser muito mais do que a soma de suas partes. É ao mesmo tempo uma reflexão sobre o que nos torna relevantes para os nossos e para o mundo; é uma análise comparativa do mundo que já tivemos e o mundo que temos agora – e como evoluímos muito menos do que gostamos de pensar; é um revisitar que nos causa uma nostalgia doentia por uma época de fortes contrastes que a maioria de nós nem ao menos viveu.

“Mad Men” é uma aula não só de televisão, mas de vida, mostrando que o simples ato de viver implica em consequências e perdas ao longo do caminho, e que muitas coisas ficarão inexplicadas – e inexplicáveis – ao longo da estrada, mas que no final a escolha de seguir em frente apesar do passado ou deixar o passado nos encher de pesar é toda nossa. Uma série sobre homens loucos que talvez assim o sejam porque tenham que lidar diretamente com o – e às vezes criar apesar do – fato que permeia uma geração carente por ser especial:

Bem, odeio ter que contar para você, mas não há uma grande mentira. Não há um sistema. O universo é indifirente.

– Don Draper

E é um tanto quanto cruel pensar que, enquanto Don Draper está sendo uma estrela na sua própria abóbada celeste criada por Matthew Weiner, nós estamos aqui, reminiscentes de um passado que nunca foi no seu universo que não se importa.


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