Lista #6 – All That Jazz

“And all that jazz…”

Não, não. Não vou falar de “Chicago” ou de filme sobre o Bob Fosse (hmm, ideias…). O lance hoje é comemorar o 30 de abril, Dia Internacional do Jazz.

Criado pela UNESCO em 2012, o Dia Internacional do Jazz busca celebrar não somente o estilo musical, mas toda a cultura que se desdobrou a partir do jazz.

Desde suas raízes do tempo da escravidão e dos seus primórdios, no início do século XX, entre os músicos negros do delta do rio Mississippi e da cidade de Nova Orleans, o jazz foi marcado por sua força de transformação social, dando voz aos oprimidos e levantando a ideia constante de liberdade. Liberdade artística, intelectual, social ou de qualquer outro tipo. Tal conceito de expressão livre permitiu que a linguagem do jazz transcendesse fronteiras geográficas e de definição como um gênero fechado. Isso fica claro ao se constatar que o jazz partiu das tradições africanas e foi recebendo novas leituras vindas de todo o mundo, transformando-se em um elemento da “cultura mundial” e que se transforma a todo momento, como um organismo vivo. Nada mais preciso do que a declaração de Martin Luther King ao dizer que “jazz expressa a vida”.

Para comemorar o Dia Internacional do Jazz o Resenhas.Jão escolheu dez canções para apreciar um pouco da arte de importantes expoentes do gênero, incluindo obras de um período que foi um grande divisor de águas na história do jazz: o ano de 1959. Vale ressaltar que a lista não está em ordem de importância e nem pretende escolher os melhores clássicos  – ficar em uma lista de apenas dez já foi uma tarefa um tanto desafiadora, mesmo os escolhendo despretensiosamente.

1959 – um ano fundamental para o jazz:

Na primeira parte da lista, músicas de álbuns que foram essenciais na construção de uma nova linguagem de jazz e que recomendamos na íntegra.

1 – Miles Davis – “So What”:

O álbum “Kind of Blue” é até hoje considerado a obra-prima que revolucionou o gênero, tornando-se sucesso tanto de crítica quanto de público, com o posto de álbum de jazz mais vendido da história e de um dos trabalhos mais influentes da música contemporânea. A faixa “So What” é uma abertura original e memorável, com um começo misterioso e completamente improvisado, sem referência de tempo ou batida. Piano e baixo vão interagindo suavemente até que, em meio à penumbra musical, surge o riff como se estivesse dizendo “so what?” (“e daí?”, em português), seguido pelo solo suave do trompete de Miles.

2 – Dave Brubeck – Take Five:  

O álbum “Time Out” destacou-se à época pela experimentação rítmica do excepcional pianista Dave Brubeck. Nesse caso, o que chama mais atenção é o fato de Brubeck e os outros músicos de seu quarteto utilizarem o conceito de polirritmia, que consistia em todos tocando o mesmo tema, em diferentes tempos, ao mesmo tempo e cada um mantendo sua batida individual todo o tempo. Ufa! Uma prato cheio para o personagem Terence Fletcher, de Whiplash, ficar analisando a execução. O clímax da obra e desse conceito é a maravilhosa “Take Five”, (também conhecida como uma das músicas que mais amo na vida), com belos solos de Paul Desmond no sax alto.

3 – Charles Mingus – Goodbye Pork Pie Hat:

Charles Mingus era um exímio baixista e um dos músicos mais libertários de sua época, o que refletia tanto na sua expressão musical quanto no seu envolvimento com contestações sociais. Tais características ficam impressas no seu poderoso e excelente álbum “Mingus Ah Um”, o qual é cheio de preciosidades. Certamente, uma das mais lembradas é a balada “Goodbye Pork Pie Hat”. Com uma melodia linda, Mingus fez uma homenagem ao saxofonista tenor Lester Young, que acabara de falecer.

Outros clássicos do gênero:

4 – Ella Fitzgerald – How High The Moon:

Ella Fitzgerald era uma grande conhecedora do The Great American Songbook (conjunto de composições estadounidenses típicas da Broadway e de Hollywood no período de 1920 a 1960) e esse também era o caso de “How High The Moon”, uma canção feita para o musical de 1940 Two For The Show. Ao interpretar essa balada romântica, Ella demonstra toda a sua soberba arte vocal com esse ótimo exemplo de como dominava com excelência o scat singing – improvisação vocal na qual a letra da canção é trocada por um silabar onomatopeico.

5 – Louis Armstrong –  (What Did I Do To Be So) Black and Blue:

Essa música foi escrita por Thomas “Fats” Waller , Harry Brooks e Andy Razaf para o musical Hot Chocolates, de 1929. Alterando o contexto original, o incrível Louis Armstrong transformou a canção em um pungente lamento e em um protesto contra a discriminação racial. A faixa começa de maneira suave e sentimental, com a banda tocando variações do tema principal, para depois aumentar gradualmente o volume e a tensão, evidenciando a dramaticidade das linhas musicais do trompete e da interpretação pela voz de Louis. Vale ressaltar que a gravação de Louis Armstrong foi lançada em 1955, e meio ao contexto do crescimento da luta do movimento negro pelos direitos civis nos EUA e da escalada das tensões sociais (a exemplo do caso do jovem Emmett Till, no Mississippi, um dos exemplos mais brutais de racismo no país).

6 – Herbie Hancock – Cantaloupe Island:

Fique à vontade para dançar. Uma das músicas mais famosas do pianista Herbie Hancock, tanto a versão de 1964 do próprio quanto a versão do grupo iglês de jazz-rap Us3 (“Cantaloop (Flip Fantasia)”) com um sample do piano da original. Esse tipo de mistura tem muito a ver com a identidade musical de Hancock, que está justamente baseada em estar aberto para diferentes influências e não se colocar rótulos, tanto que ele se mostrou muito satisfeito com o sample.

“Cantaloupe Island”  é uma canção com escolhas criativas e mudanças de acordes incomuns. Com seu riff inconfundível de piano com pegada funk dançante, trata-se de uma importante música do jazz moderno feita pelo ainda jovem Hancock, que já trabalhava com Miles Davis e que pouco depois teria a carreira catapultada, inclusive compondo para o cinema, como no clássico “Blow Up”, de Michelangelo Antonioni.

7 – Duke Ellington & John Coltrane – In a Sentimental Mood:

Em 1935, o brilhante Duke Ellington compôs essa bela música, mas foi em sua parceria com John Coltrane, em 1962, que fez uma das mais bonitas dentre as inúmeras versões desse tema. A melódica “In a Sentimental Mood” mudou para tons mais baixos e ganhou mais nuances. Passou a abrir com um piano denso e melancólico, seguido pelo expressivo solo do sax tenor de Coltrane. Lindo.

8 – Billie Holiday – Strange Fruit:

A música “Strange Fruit”, cantada por Holiday a partir de 1939, surgiu de um poema de Abel Meerpol que foi musicado. Fala do horror diante da onda de  linchamentos sofridos por grupos negros à época, principalmente nos estados sulistas dos EUA. Com receio da perda de mercado, a gravadora Columbia recusou a canção, então só com a Comodore que a música foi gravada e se tornou o maior sucesso de Billie Holiday, além de marcar a faixa como um símbolo do movimento dos negros por direitos civis. A expressividade única da voz de Holiday parece rasgar o ar com a crueldade dos fatos.

9 – Art Blakey & The Jazz Messengers – Moanin’:

De maneira bem simplificada, pode-se considerar o hard bop como uma espécie de revisão do bebop, com uma menor complexidade quanto à melodia e uma maior complexidade no plano da composição. Enquanto o bebop redefiniu o jazz moderno, valorizando o improviso, o hard bop lembrava que o improviso ficava vazio quando era apresentado sem alma, ritmo e suingue. O bateirista Art Blakey e sua banda estavam entre os principais executores dessa ideia. “Moanin’”é cheia de sentimento e suingada bem no estilo hard bop. Ainda que não explícito, o elemento de funk está ali, no piano de Bobby Timmons, que abre espaço para todos brilharem, principalmente para o trompete de Lee Morgan e o sax tenor de Benny Golson. O suingue e a tensão simultâneos dão um resultado vibrante e suave.

Infelizmente, esse link não está abrindo no celular, mas no PC está normal.

10 – Frank Sinatra – Fly Me To The Moon (In Other Words):

Originalmente intitulada “In Other Words” e quase se chamando “Take Me To The Moon”, a canção criada por Bart Howard em 1954 se tornou um jazz standard (sucessos que se transformam em clássicos) pouco depois de lançada. Foi gravada literalmente por centenas de cantores e músicos, sendo imortalizada na voz e na singular performance de Frank Sinatra, que dispensa qualquer tipo de apresentação. Para fechar com chave de ouro nossa lista, fiquem com uma apresentação de “Fly Me To The Moon” ao vivo, com todo o carisma e talento de Sinatra.

Quais outros clássicos do jazz vocês curtem? Deixem nos comentários!
Esperamos que se divirtam com nossas sugestões.

Até a próxima!

Atualização: Playlist PontoJão no Spotify

Playlist Resenhas.Jão no Deezer

Playlist Resenhas.Jão no YouTube:

Bônus – sugestões para os amantes do jazz:

Site Jazz Radio:http://www.jazzradio.com/

Programa Momento de Jazz, na Mec FM. Seg, Qua, Sex: 23h  Sáb: 22h


8 comentários sobre “Lista #6 – All That Jazz

    1. Obrigada você pelo feedback, querido! Que bom que gostou. Olha, sobre as histórias, confesso que a primeira vez que ouvi “Black and Blue” na interpretação incrível do Louis, entendendo a letra e sabendo o que significava, chorei. Foi algo que me marcou bastante.

    1. Ah, que satisfação, Lari! ❤ Tentamos dar uma equilibrada nos estilos das músicas, para ficar variado e fluido na hora de escutar. Fico muito feliz em saber que gostou! (:
      Se quiser se aventurar mais no estilo, recomendo bastante o programa da Mec FM, quando puder sintonizar no horário. Eles sempre escolhem um tema ou um artista bacana, contam curiosidades e tal. É bem legal.

  1. Gostei muito! Adorei a escolha do “Chico Cesar” do Jazz, Charles Mingus. Ele adotou uma expressão única.

    Outro clássico que promoveu o fortalecimento do jazz do oeste do USA, foi Chet Baker, com “My Funny Valentine”. Um dos ícones do cool jazz.

    Recomendo ouvir outros clássicos, como Cannobal Adderley e Art Adderley, Art Pepper Quartet ou J.T Meirelles e a Quintessencia, um samba jazz muito bom.

    Muito bom a playlist! MANDOU BEM ISA!

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