CineBrasil #1: Bicho de Sete Cabeças

“Um desgosto pode levar à loucura. Uma morte na família… O abandono do grande amor. A gente até precisa fingir que é louco sendo louco.”

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A questão da loucura e a maneira de se tratar com ela já foi extensamente visitada por Hollywood. De filmes dramáticos como “Um Estranho no Ninho” (“One Flew Over the Cuckoo’s Nest”, 1975) a thrillers como “Ilha do Medo” (“Shutter Island”, 2010), a questão dos limites da razão e o trato com aqueles que os ultrapassam foi trabalhada sob diversas lentes. Em “Bicho de Sete Cabeças” (2001), a excelente cineasta Laís Bodanzky (“As Melhores Coisas do Mundo”, “Chega de Saudade”) fez o seu melhor filme até o momento, trabalhando a questão manicomial de um ponto de vista brasileiro em uma história baseada nos registros autobiográficos de Austregésilo Carrano Bueno (1957-2008) em seu livro “Canto dos Malditos”.

O filme conta a história de Neto (Rodrigo Santoro), um perturbado jovem de 17 anos que tem uma difícil relação com seu pai Wilson (Othon Bastos) e com sua mãe Meire (Cassia Kiss) que se esforça para mediar a situação. Após diversos confrontos, Wilson encontra um cigarro de maconha na jaqueta de Neto, o que o leva a internar o filho compulsoriamente em um manicômio. Lá, Neto começa a ser medicado com tranquilizantes sem qualquer tipo de diagnóstico, e maltratado pelos funcionários do local, o que o leva a lidar com a perda gradativa de sua sanidade.

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A direção de Bodanzky é ácida, incisiva e sucinta; a diretora usa cada um dos minutos da 1h20 de filme para mostrar a degradação a qual Neto é exposto, seja com os diálogos do roteiro competente de Luiz Bolognesi ou com zooms silenciosos nas menores reações que sejam dos seus personagens.

O filme passa voando também devido a sequência de impactos que sofremos ao longo dele. Quando a situação de Neto muda e achamos que sua sorte também mudaria, vemos que ele não consegue se adaptar ao mundo que mudou tanto em tão pouco tempo – e, principalmente, que Neto não sabe lidar com as mudanças que ocorreram em si mesmo durante sua internação.

Esse tato apurado do longa é realçado por atuações impressionantes. Rodrigo Santoro preenche seu papel com segurança, e é impossível não sermos levados pelo fatos que o afetam, e Cassia Kiss consegue imprimir a angústia de uma mãe nas poucas cenas das quais participa. O elenco de apoio, que conta com nomes como Caco Ciocler (perturbador como o interno Rogério), ajudam a compor um elenco forte que dá espaço e oportunidade para Rodrigo Santoro desenvolver o protagonista.

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Mas quem de fato rouba a cena é Othon Bastos. Hoje na novela “Império” como o mordomo-de-repente-vilão Silviano, em “Bicho de Sete Cabeças” Bastos domina seu tempo no filme com sua atuação intensa de Wilson, um pai que obviamente ama seu filho e que busca fazer o que é melhor para ele dentro de suas convenções de certo e errado. Em uma mesma cena Bastos vai da fúria ao afeto, com nuances delicadas e fortes nesse ínterim, levando o espectador para dentro do seu dilema.

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A trilha sonora, composta pelo titã brasileiro Arnaldo Antunes, também merece destaque. Antes do filme acabar ao som de “Bicho de Sete Cabeças”, composição de Zé Ramalho, Geraldo Azevedo e Renato Rocha, interpretada por Zeca Baleiro, as canções de Antunes ampliam a força de cenas claustrofóbicas e nos carregam com ternura nos momentos que isso é necessário – como na breve história de amor que Neto vive.

“Bicho de Sete Cabeças” é um filme que seria imperdível que não tivesse mudado o Brasil como fez – a discussão ao redor do filme, vencedor de diversos prêmios, fez com que fosse proibida a construção de novos manicômios no país; ainda seria um longa importante caso não fosse parte do movimento chamado Retomada do cinema nacional. Com uma linguagem cinematográfica excelente, atuações perfeitas e uma história impactante, “Bicho de Sete Cabeças” é só um de muitos exemplos de como o cinema nacional produz, sim, filmes de qualidade inquestionável.

***

O CineBrasil é um esforço do Resenhas.Jão para mostrar que nosso cinema tem mais do que telefilmes e piadas de duplo sentido.


5 comentários sobre “CineBrasil #1: Bicho de Sete Cabeças

  1. Eu acho esse filme incrível! Tanto pela história quanto pela forma como foi produzido, dirigido… Pelos atores!

    Aliás, quando Rodrigo Santoro apareceu na gringa com 300, vi muita gente por aqui o criticando. Como já havia assistido O Bicho de Sete Cabeças anos atrás, desenvolvi um interesse e respeito pelo trabalho de Rodrigo há muito tempo. O que eu faço é sempre recomendar que as pessoas assistam a esse filme, portanto. (Não entendo a birra que o pessoal tem como ele, rs).

      1. Othon deu show mesmo! Mas, o acompanho muito pouco… Faz já um tempo que não assisto novela e, de filme, acho que só o vi em Nosso Lar (além de O Bicho de Sete Cabeças, claro).

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