O Aniversário de Young Americans (1975)!

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Young Americans

Data de lançamento: 7 de março de 1975

Gravadora: RCA

O DISCO

– por Isabelle Cristina

Ao se falar sobre David Bowie, já é de praxe mencionar sua extraordinária capacidade de se transformar, o que não significa que ele o faça meramente adaptando sua expressão artística conforme o que está em voga. Apesar de seu título de camaleão da música, Bowie foge completamente de definições simplistas, pois sua trajetória deixa impresso que as diversas mudanças e nuances de seu trabalho são majoritariamente fruto de processos internos de sua persona, aliados também ao seu contato com novas experiências externas. Como o próprio diz, ele busca que sua música desperte seus fantasmas interiores. Dessa forma, Bowie fundiu diversas maneiras de manifestação (literatura, moda, cinema, diferentes estilos musicais, críticas sociais etc) em uma linguagem fascinante e própria.

Em 1974, depois de ter dado fim ao ciclo de “Ziggy Stardust”, e durante um intervalo da turnê de divulgação de “Diamond Dogs”, Bowie resolveu ir para o estúdio e fazer uma incursão no mundo da música soul estadunidense, dando a sua interpretação à mesma. Apesar da grande mudança, o artista estava voltando a um ramo que sempre admirou (a exemplo de quando fazia parte dos “The Manish Boys”, banda que tocava R&B).

Assim surgiu o álbum “Young Americans”, de 1975, não por acaso gravado quase inteiramente na Filadélfia (lugar considerado berço da música soul), no estúdio Sigma Sound e terminado em Nova Iorque, no estúdio Electric Lady. Eis um disco maravilhoso que está completando 40 anos de lançamento em 2015, com o frescor e a vibração de um jovem de 20.

Para fazer essa imersão no soul, Bowie contratou músicos como o guitarrista Carlos Alomar (havia tocado com Ben E. King, coautor e cantor da inesquecível “Stand By Me”, e se tornou parceiro fixo de Bowie em outros trabalhos), os bateiristas Andy Newmark (do Sly & The Family Stone) e Dennis Davis, e o saxofonista de jazz David Sanborn, dando o delicioso toque suingado ao longo das oito faixas. A composição insipirada no gospel dos backing vocals ficou com o destaque para nomes como Ava Cherry, Robin Clark e Luther Vandross, que se tornaria famoso alguns anos depois. Algo notável foi o fato de a maior parte do álbum ter sido gravada ao vivo, durante longas madrugadas, com todos os músicos dividindo o mesmo espaço, dando muito trabalho para que conseguissem captar a voz de Bowie sem que ela fosse abafada pelo som dos instrumentos.

As gravações do álbum acabaram chamando a atenção de fãs da área, que passaram a aguardar do lado de fora do estúdio, na esperança de ter algum contato com o ídolo. Com o tempo, foram sendo chamados de “Sigma Kids”. No último dia de gravação, estes e outros fãs foram convidados para uma apresentação no estúdio de versões ainda inacabadas das músicas e para uma festa em seguida [pausa para a inveja]. Não há como falar das curiosidades desse álbum sem mencionar a aparição da faixa “Young Americans” ao final dos filmes “Dogville” (2003) e “Manderlay” (2005), partes da trilogia inacabada de Lars von Trier sobre os Estados Unidos. A composição pungente das imagens de Jacob Holdt – tiradas do livro “American Pictures” , e a música de Bowie nos créditos finais de ambos os filmes reforça o significado de crítica social, o poder e o caráter atemporal dessa faixa incrível que intitula o álbum.

Young Americans é um grande álbum de mistura de referências pensadas com cuidado, com canções que merecem ser ouvidas de olhos fechados e outras que podem facilmente te colocar com o ânimo para mostrar seus melhores passos, caso goste de dançar. Além disso, deixa a impressão de que Bowie pode se arriscar em qualquer gênero musical que será bem-sucedido.

AS MÚSICAS

– por Erik Avilez

Desde a faixa homônima de abertura (e primeiro single do álbum), “Young Americans” se distancia dos trabalhos anteriores de Bowie; o rock experimental de discos como o mitológico “Ziggy Stardust and The Spiders from Mars” (1972), “Aladdin Sane” (1973) e “Diamond Dogs” (1974) é posto de lado em prol do som que já é identificável como o soul da Filadélfia. O álbum trilha esse caminho através dos vocais de “Win“, seguindo para a dançante “Fascination” – com suas linhas de baixo marcantes e o saxofone já se tornando onipresente no álbum.

Vem então “Right“, a B-side do segundo single do álbum: “Fame” – mas voltamos nela depois. Mantemos o groove com “Somebody Up There Likes Me” antes de entrarmos em um cover dos Beatles em “Across the Universe“, produzida por uma figura talvez conhecida por vós, caro leitor. O cover (na minha fecal opinião, melhor que a versão original) segue a mesma temática sonora do álbum, e nos entrega “Can You Hear Me?” como a última faixa “soul love” do compacto.

Finalmente fechamos “Young Americans” com “Fame“. O single foi o primeiro de Bowie a entrar nos Top 10 da Billboard – alcançando o primeiro lugar. A canção, que trata as experiências ruins que Bowie teve com seus agentes, foi co-produzida – e co-escrita – por certo John Lennon, em uma jamming session modesta que Bowie e Lennon tiveram em Nova Iorque. O guitarrista Carlos Alomar (em sua primeira de muitas colaborações com Bowie) montou o riff, sobre o qual Lennon imitava o som dizendo “Fame!”. A música rapidamente ganhou forma a partir desta ideia de Lennon, e foi gravada a toque de caixa – na mesma leva em que o cover “Across the Universe” foi gravado. Além de ajudar na composição como um todo, é de Lennon a voz que é acelerada e desacelerada dizendo a palavra “Fame” antes dos versos finais cantados por Bowie.

“Young Americans” se mostra um álbum de reinvenção do Camaleão do Rock; depois dos sons experimentais que já trazia desde “Space Oddity” (1969) e o rock protopunk com traços progressivos que desenvolveu ao longo de meia década, Bowie se transforma completamente de forma anunciada (visto a declarada paixão do artista pelo soul americano), mas definitivamente não esperada. “Young Americans” é um registro além de histórico, biográfico de um artista multifacetado por definição.

Obs.: ainda temos as faixas “Who Can I Be Now” e “It’s Gonna Be Me” como faixas extras, lançadas posteriormente após serem substituídas pelas gravações feitas com Lennon. São músicas ótimas, principalmente a primeira, que além de ter lugar cativo em meus reprodutores de MP3, lembra da natureza mutante desse gênio da cultura pop internacional.


5 comentários sobre “O Aniversário de Young Americans (1975)!

      1. Legal! Bowie é uma das figuras que eu sempre penso em falar lá no meu blog (de vez em quando ele aparece), mas, no momento, estou tentando seguir uma linha mais atual, atendendo à maioria dos meus leitores. Por isso, é sempre bom ver algo sobre ele por ai 🙂

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