Lista #5 -O Dia Internacional da Mulher e suas protagonistas no cinema

A limitação da representatividade da mulher no cinema não é algo novo e não vem apresentando mudanças muito positivas nos últimos anos, o que acaba se refletindo nas bilheterias. Em 2012, apenas 28,4% de todos os personagens com fala dentre os 100 filmes de maior bilheteria nos EUA eram mulheres, por exemplo.

Há uma lacuna de protagonistas femininas relevantes e que não sejam construídas de modo simplista e infantilizado. Filmes que perpetuam estereótipos problemáticos (da namorada troféu, da que está incompleta sem um relacionamento romântico, da fragilidade submissa como um ideal de feminilidade, da balela de que a camaradagem feminina é algo raro, dentre outros) já são muitos. Menos destes, por favor, e mais filmes que mostrem mulheres interessantes que divirtam, emocionem, provoquem e inspirem.

Para celebrar a passagem do Dia Internacional da Mulher, em 8 de março, o Resenhas.Jão separou dez filmes que se saem muito bem ao destacar suas personagens femininas. Mulheres lindas, delicadas, fortes e ameaçadoras. Todas em uma só e em várias ao mesmo tempo. Mulheres plurais.

Frida (“Frida“)

A cineasta e diretora de teatro Julie Taymor conta com muita sensibilidade a história da incrível artista Frida Khalo, passando pelos principais momentos de sua vida pessoal e captando muito bem o ideal de paixão e liberdade expressos em sua arte. Uma cinebiografia bem feita de uma mulher tão especial  e  à frente de seu tempo como Frida Khalo já faz valer a indicação, mas “Frida” vai além  ao se mostrar uma experiência fílmica realmente marcante. As inventivas escolhas estéticas e narrativas, a bela fotografia (a sequência do acidente é fantástica) e a trilha sonora cuidadosamente trabalhada (a participação da emblemática cantora Chavela Vargas representando a morte e interpretando “La Llorona” me arrepia até hoje), encantam e entretêm. O filme nos deixa a sensação de que as principais cores da arte e da identidade de Frida estão ali.Frida

Alien (“Alien“)

Podemos concordar que a atriz Sigourney Weaver se tornou um ícone da ficção científica?  Sim, podemos!

ellen-ripley

Eternizada no papel da tenente Ellen Ripley, uma mulher que assume a responsabilidade de lutar para defender, em  pé de igualdade com os homens, a nave Nostromo do invasor alienígena. De fato, o foco do filme está no tema da sobrevivência da raça humana, mas é interessante observar a opção dos realizadores de mostrar também o tema do estupro, que aparece através de símbolos e afeta a todos. O diretor Ridley Scott traz a mistura de ficção científica e terror, deixando muito espectador suando frio cada vez que o xenomorfo (a.k.a. forma mais evoluída do alien que quase fez minha mãe ter um treco no cinema) rondava os personagens. Objetiva, esperta e determinada, Ellen Ripley mostra ao longo de todo o filme sua força e autonomia, enquanto luta por sua sobrevivência. O filme preparou terreno para a igualmente memorável sequência “Aliens – O Resgate”, que se tornou um clássico dos anos 80. Aliás, temos uma lista maneiríssima sobre as preciosidades dos anos 80.

Volver (“Volver“)

Esse filme delicioso gira em torno de cinco mulheres de uma mesma família de um vilarejo espanhol e mais algumas amigas delas. Quem espera os ricos diálogos, típicos dos filmes de Almodóvar, com certeza não irá se decepcionar. volver3 post

Aos poucos vamos nos sentindo confidentes das memórias dessas mulheres, de suas reflexões e de como lidam com a opressão em torno delas. Tais recordações e segredos estão distribuídos em camadas que vão sendo expostas aos poucos, rendendo vários momentos marcantes. Fotos, cheiros e sons; detalhes aparentemente triviais de repente são carregados de significado, ajudados pela fotografia quase poética. A alternância entre momentos mais dramáticos e outros leves faz com que o filme fique fluido e nos divirta muito. A cada “discreto” anúncio que Sole fazia da chegada de Raimunda eu caía na risada! Cumplicidade, amor e relação cultural com a morte estão presentes nesse filme de mulheres fortes, solidárias e encantadoras.

 

Thelma & Louise (“Thelma & Louise“)

A primeira coisa que penso sobre esse filme é que se trata de um dos melhores road movies já feitos. O ponto de partida é bastante simples: duas amigas planejando uma viagem de fim de semana e tirando um adorável autorretrato em uma Polaroid, para registrar o momento (muito mais legal do que qualquer um tirado com pau de selfie).

thelmaandlouise

Louise aparece como uma mulher decidida e assombrada pelo passado. Já Thelma, de certa forma ingênua e ansiosa por expressar sua personalidade por completo. Só que há muito mais sobre a história dessas mulheres nas entrelinhas. O mais legal é que tais características não ficam engessadas, mostrando as outras facetas e as transformações de cada uma no desenrolar dos acontecimentos e desditas das duas. O bom ritmo da direção e as atuações im-pe-cá-veis (!) de Susan Sarandon e Geena Davis deixam o filme envolvente do início ao fim. Ridley Scott capricha nos planos gerais na estrada, reforçando a sensação de desbravamento, e o ambiente ajuda a compor os sentimentos das personagens, principalmente nos momentos de silêncio. Uma história sobre  amizade acima de tudo e de busca por liberdade pelas longas estradas, atrás do volante de um Thunderbird verde.

 

Kill Bill – Volume 1 (“Kill Bill – Volume 1“)

Beatrix Kiddo (“A Noiva”,  interpretada pela maravilhosa Uma Thurman) personifica perfeitamente a já conhecida e difundida expressão “tiro, porrada e bomba”, como uma ex-assassina profissional em busca de vingança. beatrix

Tarantino mistura linguagens e cria um ambiente próprio, baseando-se em 1001 referências que vão desde Bruce Lee (naquela roupa amarela da Beatrix, nas máscaras usadas pelos 88 Malucos e na pancadaria empolgante, por exemplo) aos filmes western. Essa homenagem aos westerns com o tema da vingança se torna particularmente interessante, pois se trata de um gênero tradicionalmente dominado por homens sendo representado por mulheres, sem que estas sejam masculinizadas. O acerto de contas entre Beatrix e as outras integrantes do D.i.V.A.S. (sigla em inglês para “Esquadrão Mortal das Víboras Assassinas”) não fica devendo nada às vinganças dos westerns mais famosos.

 

Tomates Verdes Fritos (“Fried Green Tomatoes“)

Apesar de iniciar com o que aparenta ser o principal gancho do filme – o anúncio de um assassinato seguido de um julgamento – , o tema real do filme são os laços que vão sendo construídos entre as mulheres e que são mostrados para o espectador no formato de uma história dentro da história – uma se passando nas décadas de 20/30 e a outra nos anos 90. O recorte temporal em diversos flashbacks acaba ficando um pouco cansativo às vezes, mas funciona pelas transformações que acontecem com a ouvinte da história nos dias atuais, a cativante Evelyn (Kathy Bathes), e pela qualidade das atuações das outras protagonistas – Mary Stuart Masterson, Mary-Louise Parker e Jessica Tandy. Grüne Tomaten / Fried Green Tomatoes

Independência, lealdade, autoconhecimento – a cena que Evelyn faz uma aula sobre sexualidade feminina é ótima – , valorização da autoestima e não aceitação de uma sociedade opressora, desafiando os limites impostos ou doutrinados por esta. Um filme sobre sensações, com histórias paralelas de lindas amizades entre mulheres e suas de descobertas conjuntas, equilibrando grande ternura e aspereza.

 

Revolução em Dagenham (“Made in Dagenham“)

Ambientado no final dos anos 60 e baseado em fatos iniciados em Dagenham, trata-se de um filme muito agradável que aborda a luta  travada entre operárias inglesas e uma empresa de automóveis (uma bem pequena: a Ford), na qual elas reivindicavam direitos trabalhistas iguais. made_in_dagenham_02535x355

É bacana ver como as protagonistas lideradas por Rita O’Grady (Sally Hawkins) vão ganhando confiança, o que reflete na forma delas lidarem com as negociações e se expressarem em pé igualdade – a cena da protagonista arrasando os membros do sindicato é sensacional. A Rita que não consegue confrontar o professor que pune fisicamente seu filho passa por um processo de transformação e de descoberta do seu potencial, contagiando as outras mulheres à sua volta. Um filme leve e simpático que destaca o companheirismo feminino e sua força. A aparição de cenas de arquivo com as reais envolvidas no acontecimento nos créditos finais é uma grata surpresa.

 

Flor do Deserto (“Desert Flower“)

Essa não é uma obra sobre uma mulher que deu a volta por cima tendo o visual repaginado e virando uma modelo; isso não a define. Sim, a carreira de sucesso de Waris Dirie faz parte da trajetória mostrada nesse filme baseado em fatos da vida dela, mas o que fica marcado é seu desejo de que sua figura pública seja usada para algo maior. Waris decide falar abertamente sobre a mutilação genital feminina, tornando-se embaixadora da ONU no combate à essa prática. Liya Kebede se sai muito bem em uma atuação sem exageros, o que deixa os momentos de angústia de Waris ainda mais verdadeiros e claustrofóbicos. A conversa que tem com Marylin (olha a Sally Hawkins aí de novo) sobre seu corpo e cena da opressão psicológica no hospital me pegaram de jeito. 63ab21c009d253cc7f8a11be47db3bbf

O filme não tem grande apuração técnica, mas apesar de seu deslizes na utilização de alguns recursos, traz cenas com beleza e escolhas interessantes. As sequências no deserto após a fuga de Waris são um bom exemplo, nas quais a diretora Sherry Hormann  utiliza o contra-plonguée (“câmera baixa”) em momentos de maior força e determinação de Waris e o plonguée (“câmera alta”) para enfatizar as passagens de maior solidão. “Flor do Deserto” é um filme sobre emancipação com uma protagonista inspiradora.

 

Erin Brockovich – Uma Mulher de Talento (“Erin Brockovich“)

Nesse filme baseado em fatos, Steven Soderbergh conta um pouco da vida de Erin Brockovich. Mostra as transformações que acontecem na sua trajetória quando passa a ser secretária em uma agência de advocacia, enquanto ela divide sua atenção entre as causas que acredita e seu papel de mãe solteira de três filhos. brockovich1

A trama é levada pela energia pulsante de sua protagonista incisiva e audaciosa (dando o Oscar de Melhor Atriz para Julia Roberts), que se trata da personificação da máxima do “bateu, levou”, criando situações divertidas. Mostra também como pode ser difícil para uma mulher parar de se adaptar às expectativas externas e tomar de fato o controle das próprias aspirações e da própria vida. Processo difícil, cheio de obstáculos postos pelo preconceito, porém absolutamente necessário e empoderador. E é exatamente isso que a protagonista faz, com vários ótimos momentos em que bate o pé no chão e se afirma [mic drop!].

 

Bonequinha de  Luxo (“Breakfast at Tiffany’s“)

Esse entrou na lista não somente pelo ícone feminino de Audrey Hepburn fora das telas (Audrey atuou como defensora dos direitos humanos, sendo embaixadora da UNICEF no final da década de 80), mas também porque acabou se consolidando como um marco de maior mudança na imagem comportamental feminina no cinema. Holly Golightly era de fato uma personagem à frente de seu tempo: ousada, ambiciosa e, acima de tudo, livre. audreyhepburn

Já na década de 50, algumas personagens de Marilyn Monroe haviam introduzido no cinema algumas rupturas quanto à imagem de submissão feminina, mas “Bonequinha de Luxo” teve o impacto de mexer ainda mais com o ideário feminino. Muito graças à figura de Audrey, as características de Holly consideradas negativas até então não sofreram uma rejeição do público. Um fenômeno cultural que ultrapassou  completamente o seu tempo e uma homenagem à beleza da liberdade feminina. E como não se encantar ao ver Holly despreocupada em sua janela cantando “Moon River” (ganhadora do Oscar de Melhor Canção Original)?

Essas são as nossas dicas. Até logo e bom filme!

parks


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s