Grandes Olhos (2015)

– Seu marido é muito talentoso. Você também pinta?

– Eu não sei…

grandes olhos

Título: Grandes Olhos (“Big Eyes”)

Diretor: Tim Burton

Ano: 2014

Pipocas: 8/10

     Com indicações para o Globo de Ouro, Prêmio BAFTA, dentre outras premiações, “Grandes Olhos” conta a história da artista Margaret Keane (Amy Adams, vencedora do Globo de Ouro de Melhor Atriz de Comédia ou Musical ano passado pelo filme “Trapaça” e ganhando o mesmo prêmio na edição de 2015 por seu papel em “Grandes Olhos”), que sofreu durante anos calada, enquanto seu persuasivo e manipulador marido, Walter Keane (Christoph Waltz, com dois Oscars de Melhor Ator Coadjuvante no currículo por “Bastardos Inglórios e “Django Livre”, também indicado ao Globo de Ouro de Melhor ator de Comédia ou Musical por “Grandes Olhos”), assinava suas pinturas expressivas de crianças com olhos grandes e melancólicos, levando todo o crédito pelo sucesso que elas fizeram – até que ela levasse o estranho caso à justiça.

O filme começa com Margaret (então Ulbrich) tomando a decisão extrema para uma mulher de sua época de abandonar seu marido controlador. Entretanto, o que parece um novo começo ao lado de sua moderna amiga DeeAnn (Kristen Ritter, de “O Sorriso de Monalisa”) se transforma em um novo ciclo de anulação. Margaret Ulbrich se tornou Margaret Kane, enquanto sua identidade real desvanecia.

Como um típico cenário social dos anos 50/60, a necessidade de validação masculina está por toda parte: as perguntas invasivas do dono da fábrica de móveis na entrevista de emprego; sua relação com Walter; os críticos de arte e, talvez, até pelo fato de sua história ser narrada em “voice over” (uma escolha um tanto arriscada) por um homem, o repórter Dick Nolan (de “X-Men Origens: Wolverine”). Sua relação com sua filha Jane (interpretada por Delaney Raye e Madeleine Arthur) não é tão destacada, embora fique claro o companheirismo e cumplicidade das duas. O foco constante está em Margaret e como ela reage ao ambiente hostil à sua volta.

Fazendo um recorte temporal linear, o filme apresenta as ambiguidades da época ao mostrar como aspectos pueris e cruéis poderiam sobressair com igual intensidade. Aparecem reflexos do “american way of life” e da prosperidade de seus anos dourados, ao mesmo tempo tentando mostrar o contexto de transformação e as fragilidades características de um modelo que estava por ruir. A relação estranha e doentia estabelecida entre Margaret e Walter Keane representa de certa forma tais dualidades. Apesar desses fatores angustiantes, a leveza (a cartela de cores suaves, principalmente os tons de azul, contribuem para essa impressão) e a comicidade estão presentes. Em parte pela história suficientemente bizarra da enorme fraude, mas muito também pela performance de Christoph Waltz, mostrando as nuances da personalidade histriônica/perversa/carismática/doida de pedra (alguns afirmavam que ele sofria de transtorno delirante, mas nada comprovado) de Walter Keane, além do fato deste ser a personificação do recalque.

A cena do supermercado é a que possui o maior toque estilístico de Tim Burton. Nela Margaret começa a ser assobrada por suas próprias criações, perseguida por ela mesma, após suprimir conscientemente e por tanto tempo seus sentimentos. Como ela mesma diz, nunca agiu livremente, apenas cumpria papéis e expectativas: de filha, de esposa e, então, de mãe. Apesar de reprimida por esse contexto social da época, Margaret sabia bem o que a sufocava. Tal consciência tira a unidimensionalidade da protagonista, pois esta se cobrava constantemente por compactuar com o que a afligia. Eis um dos motivos da riqueza dessa personagem – que é o maior trunfo do filme. Amy Adams, encantadoramente entregue ao papel, brilha por não decepcionar ao transmitir tais conflitos, e por cativar ao nos fazer crer ao mesmo tempo na ingenuidade e na força interior de Margaret.

O que (e quem) define o que é arte e o seu valor? No início do filme, Burton dá uma dica de seu posicionamento sobre a questão, mostrando uma frase de Andy Warhol elogiando a arte de Keane e apontando a conexão dessas obras com tantas pessoas como algo positivo. Ainda que não diretamente, o filme traz o pensamento de que a popularização de uma obra não a torna automaticamente em um kitsch, o que não fecha a porta da discussão e da subjetividade (admita que esse mundo seria mais sem graça sem as calorosas observações sobre a tsunami Romero Britto, por exemplo).

O filme foge do tipo de temática e estilo característico de Burton, mas contém elementos que podem ser associados ao diretor, como o segredo e o sombrio. Só que eles não aparecem diretamente, estando mais relacionados ao conteúdo do que à forma. Algo que incomoda são as interrupções um tanto bruscas de momentos importantes e a presença de passagens com o ar dispensável de “cenas excluídas”, mas não chega a desmerecer o filme como um todo.

Culminando no que foi certamente um dos julgamentos mais bizarros já realizados, “Grandes Olhos” não se trata de um filme extraordinário, mas que cumpre o papel de contar essa história tão singular e o conflito interior da protagonista para encontrar sua voz, de uma forma sutil e com um charme inesperado. Certamente os olhos de Adams foram a janela ideal para enxergarmos um pouco da alma de Margaret Keane.


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