Ela (2014)

“Às vezes eu acho que já senti tudo que vou sentir algum dia. De agora em diante, não sentirei mais nada novo. Só versões menores do que já senti.”

ela

Filme: Ela (“Her”)

Ano: 2013

Diretor: Spike Jonze

Pipocas: 10/10

Ocasionalmente surgem filmes que, mesmo com um tema já conhecido e às vezes até já abordado na tela, trazem uma roupagem diferente e uma linguagem que dialoga perfeitamente com pessoas de uma época, apesar de suas idades; isso se dá pelo fato de a mensagem intrínseca daquela película ser universal, apesar de seu posicionamento temporal. Quando esta verdade ainda é embrulhada em um uso coeso e coerente do cinema como um todo para ser transmitida, algo especial acontece – e um clássico nasce. Esse é o caso do filme “Ela”.

No longa (indicado aos Oscars de Melhor Design de Produção, Melhor Trilha Original, Melhor Canção Original e ganhador de Melhor Roteiro Original), Theodore (Joaquin Phoenix, o Johnny Cash em “Johnny e June”) é um homem mediano em todos os sentidos da palavra que, ainda remoendo o fim de seu casamento com Catherine (Rooney Mara, de “Os Homens que Não Amavam as Mulheres” e “Terapia de Risco”), encontra distração de seus problemas na tecnologia que o cerca e em sua amizade com Amy (Amy Adams, presente em 4 a cada 3 filmes de Hollywood depois de “Encantada”). Sua vida medíocre muda quando uma atualização no seu sistema operacional cria uma persona para servir de interface, gerada de acordo com suas necessidades psicológicas, que se autodenomina Samantha (Scarlett Johansson, a Viúva Negra de “Capitão América 2” e a atual femme fatale favorita de… Bem, todo mundo). O relacionamento dos dois se aprofunda à medida que Samantha aumenta a percepção do mundo a sua volta, para além dos dados a que tem acesso, e Theodore reconhece que ela pode ser muito mais do que somente um programa de computador.

O filme se comunica tão perfeitamente com todo o seu público que é difícil apontar um motivo único para justificar sua excelência. Dentre os diversos tópicos dignos de elogio, destaca-se a direção de Spike Jonze. O diretor/roteirista conta sua história com uma delicadeza singular, destacando a humanidade em cada um dos seus personagens para diminuir qualquer estranheza que poderia ser causada por sua protagonista. Toda a produção e a fotografia, indo desde a identificação visual do futuro retratado como se fosse os anos 1970 aos flares constantes, servem ao trabalho de acrescentar uma camada de sonho a todo o filme, opondo o passado e o futuro, o real e o onírico.

A trilha e os efeitos sonoros seguem esta mesma linha, sendo o seu destaque a cena no parque de diversões – mais uma vez dentro da abordagem contrastante mencionada acima – e em outras cenas em que o filme se emudece e deixa a música e a atuação deslumbrante de Joaquin Phoenix falar mais alto. Ainda nesta área de intersecção entre atores e som, a atuação de Scarlet Johansson, que poderia se pensar limitada à voz, ocupa todo o espaço que lhe é dado, acrescentando camada após camada em uma personagem que tinha tudo para ser unidimensional – literalmente –, não fosse tão gracioso e meticuloso o texto de Jonze e tão eficaz a ação de Johansson. Destaque ainda para a linda canção “The Moon Song”, indicada ao Oscar de Melhor Canção Original.

Distribuídos os louros, fica na interpretação dos temas dos filmes sua parte mais rica. A primeira análise que salta aos olhos é quanto à capacidade do mundo de ser cíclico; a moda, os produtos e as artes parecem ter progredido e voltado aos anos 70. Isso cria uma sensação confusa de familiaridade e estranheza, que simultaneamente nos deixa mais receptivos e curiosos em relação ao desenvolver da história e daquela realidade – mais próxima do nosso mundo de Siri e Android do que do mundo com calças boca-de-sino e ABBA.

A segunda pergunta, que se aprofunda ao longo da película é uma das perguntas que mais nos assombra: o que torna um simples ser, humano? Seria o conteúdo moral e ético, mesmo que transitórios? Seriam os sentimentos e sensações, ou a capacidade de raciocínio? Se for isso, assim como Isaac Asimov e Phillip K. Dick (e os vários filmes que Hollywood adaptou de suas ideias) propuseram, robôs e outras construções imbuídas de inteligência artificial seriam também seres humanos? Se as máquinas pensam autonomamente, criam e evoluem por conta própria, o que nos torna diferentes delas? O que são sensações senão impulsos elétricos em fios – literalmente?

É difícil dizer quando surge um clássico. Às vezes eles caem no esquecimento por décadas até que seu valor seja reconhecido; outras vezes as cenas marcantes, os prêmios e a bilheteria tornam o legado do filme evidente mesmo à sua época. Spike Jonze criou aqui uma película que, em sua simplicidade, dispensa qualquer rótulo e, embora somente o tempo possa dizer qual é o valor perene que “Ela” tem, o fato é que é impossível não amá-la.


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