O Lado Bom do Filme

Image

FIlme/Romance: Silverlinings Playbook (O Lado Bom da Vida)

Lançamento: Livro 2008/ Filme 2013

Autor/Diretor: Matthew Quick/David Russel

Editora: Intrínseca

O que esperar de um protagonista que começa a história sendo liberado de um hospital psiquiátrico (vulgo manicômio) porque recebeu uma ordem de restrição da própria esposa (pela qual ele é obsecado)? O que esperar de um romance entre esse protagonista e uma mocinha que faz terapia porque se tornou ninfomaníaca depois que o marido morreu? Silverlinings Playbook (O Lado Bom da Vida, no Brasil), grosso modo, retrata as linhas acima. Tanto no romance escrito por Matthew Quick em 2008, quando no filme dirigido por David Russel em 2012. Entretanto, e como era de se esperar, as semelhanças encontram-se aqui, mas somem 

O filme, de uma forma geral, se saiu muito bem com a crítica (inclusive ganhando um Oscar de melhor atriz e várias outras nomeações). Não é para menos, o elenco do filme é excelente. Bradley Cooper (Yes, Man – Sim, Senhor; The Hangover – Se Beber não Case;) é Pat Solitano (no filme, no romance seu nome é Pat Peoples), Jennifer Lawrence é a problemática e sincera Tiffany (The Hunger Games – Jogos Vorazes). Ela levou a estatueta do Oscar de 2013 de melhor atriz principal. Além dos protagonistas, no elenco secundário, Robert De Niro como pai de Pat, Jack Weaver (muito bem caracterizada de acordo com o livro) como mãe de Pat e Chris Tucker como o amigo (negro, sempre citado racialmente no livro) que Pat fez enquanto internado.

Joguetes talentosos da indústria do cinema à parte, Silverlining Playbook, como obra, pode ser avaliado sob dois panoramas diferentes; 1) como adaptação cinematográfica; 2) como romance, obra literária. O mais interessante da análise de ambos os aspectos, é notar como eles correm para direções completamente opostas.

Como adaptação cinematográfica, se comparado com o livro, possui várias discordâncias com o enredo impresso. Sempre haverá aqueles incapazes de entender a diferença entre os termos “adaptação cinematográfica” e “reprodução cinematográfica” e, uma vez que esta está longe de ser uma discussão frutífera (filme versus romance), é importante atentar para o que realmente importa das diferenças entre os dois. É claro que é fácil de entender que nem todas as cenas narradas num livro podem, necessariamente, fazer parte de um roteiro por motivos óbvios: o tempo de duração do filme se excederia demasiadamente, a cena pode ser marginal e desnecessária para a trama principal (que é a que importa no cinema), a descrição pode ser desinteressante visualmente falando e uma série de outras coisas que variará de acordo com o que o roteirista pensar (ou não). Entretanto, as maiores discrepâncias entre o romance e a adaptação cinematográfica são duas coisas que basicamente formam o cerne de todas as problemáticas do personagem principal. O real estado mental de Pat e a construção cronológica da história. Existe uma diferença tremenda entre a desordem mental do personagem no livro e no filme. O Pat do livro é diagnosticado com transtorno bipolar (que causa mudanças abruptas de humor, no caso de Pat, acessos de ira) e transtorno obsessivo compulsivo (o famigerado TOC) que indica várias manias realizadas de forma metódica e doentia. Isso se configura, praticamente, da seguinte forma: em vários pontos da história, quando determinadas coisas acontecem, Pat tem um ímpeto raivoso muito grande que o faz praticar atos que, de tão violentos, podem até ser considerados criminosos. Isso no filme é até bem retratado, entretanto o TOC com relação ao peso e aos exercícios físicos é muito mal retratado justamente por causa do segundo fator discrepante, a cronologia da história. Segundo o livro, Pat passou anos internado no hospital psiquiátrico (segundo o filme foram apenas oito meses). No livro, narrado pelo próprio Pat, ainda fica claro que, ao ser internado, ele estava muito acima do peso e que, possivelmente, esse foi um dos motivos para que Nikki, sua ex esposa, pedisse que ficassem “um tempo” afastados. Isso faz com que Pat torne-se um fisiculturista compulsivo, praticando sessões de levantamento de peso, flexões e abdominais com exorbitantes números de repetições. No filme, as únicas formas de exercício físico exibidos são as corridas habituais, vestindo o habitual saco de lixo preto por cima da roupa, para suar mais enquanto corre. Essa obsessão pelo próprio peso não fica tão evidente porque a cronologia usada no filme foi drasticamente reduzida, tornando sua história menos dramática porque levou menos tempo para acontecer. Outro grande problema dessa cronologia é em relação aos conflitos de Pat com o pai e com a própria memória. No filme, quando Pat volta para casa, encontra um pai desconfiado, mas disposto a conversar, mesmo que superficialmente. No livro, o protagonista narrador sofre bem mais com isso, ao ponto de considerar um grande avanço o pai deixar as páginas de esportes do jornal nos degraus da escada do porão onde Pat montou sua própria academia. Além disso, no romance, o personagem principal acha que passou apenas alguns meses internado. Na verdade, foram anos. Ele trava sempre uma batalha consigo mesmo ao ver evidências de que passou tanto tempo internado quando vê, por exemplo, a implosão e construção do novo estádio dos Eagles (time de football para o qual torce) e as fotos dos filhos de seus amigos que ele não chegou a conhecer porque foi internado e, agora, as crianças têm entre três ou quatro anos de idade. Pat se vê, muitas vezes, tentando reconstruir a sua memória do que realmente aconteceu antes de ele ir para o manicômio. No filme isso tudo já vem mastigado para o espectador e para Pat.

Entretanto, por causa do valor estilístico e de suas atuações e direção (bastante precisa), o filme traz para o cinema uma renovação no gênero de comédias românticas, que há muito tempo caiu no lugar comum. Silverlinings Playbook traz a comédia dramática, com situações absurdas e problemas graves de pessoas que têm distúrbios mentais sérios. As situações transitam bastante entre o absurdo e o normal, o cômico e o trágico. De forma resumida (e chula) é um filme para rir e chorar. Algo novo no cinema atual.

Como obra literária, podemos, infelizmente, jogar o romance na mesma pilha de tantos outros escritos hoje em dia que vendem muito bem e, até pode-se considerar isso um ponto positivo, têm trazido vários jovens para a leitura. Resumindo todos esses livros e autores numa única frase, podemos dizer que a maioria deles é extremamente criativa (John Green, Marcus Zusak e o próprio Matthew Quick. Importante lembrar: o Nicholas Sparks não cabe nessa lista. Mas isso vale outro post) e têm estórias fascinantes para contar. Coisas extremamente originais. Infelizmente, o que aparenta é que todos confiam na própria estória a ser contada para sustentar a força literária do livro, deixando de lado uma das coisas que possibilitou a importância, a vida, e por que não dizer, a manutenção das escolas literárias (e do mercado literário): o estilo. Em suma, Silverlinings Playbook cai na pilha dos livros que têm estórias excelentes e nenhum estilo narrativo original (ou copiado de algum dos mestres passados da pena). É claro, que ainda haverá escritores para suprir esse vazio estilístico que a literatura de alcance massivo teve outrora, Mathew Quick não é um deles em Silverlinings Playbook. Entretanto, é um excelente passatempo entro um russo e outro.

Curtiu a resenha? Compre O Lado Bom da Vida (mas o filme é melhor ok?)


4 comentários sobre “O Lado Bom do Filme

  1. O filme é ótimo, realmente gostei. A história eu achei muito bom, bem executar um script, engraçado e inteligente. Abotoaduras entre Jennifer Lawrence e Bradley Cooper me espanta, posso dizer que é um dos melhores filmes de drama Cooper. Atuações ótimas até mesmo dos coadjuvantes Robert De Niro e Jacki Weaver estão ótimos. Uma ótima historia, madura, diferente de todas essas comedias dramáticas/românticas. Vale muito apena acompanhar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s