Sobre Clem and Joel e a Memória

How happy is the blameless vestal’s lot!
The world forgetting, by the world forgot.
Eternal sunshine of the spotless mind!
Each pray’r accepted, and each wish resign’d;

Alexander Pope

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Eternal Sunshine of a Spotless Mind

Michael Gondri

2004

Joel acorda um pouco esquisito, diferente do normal. Na estação de trem para ir ao trabalho, ele muda completamente de rumo e vai para uma praia deserta (Montauk), sem saber muito bem o porquê. Joel (Jim Carrey) não é impulsivo, diz ele. Mesmo assim toma essa atitude inesperada. Nesse local tão diferente, ele avista um ser tão incomum quanto o lugar em si. Uma mulher de cabelo azul. É claro que Joel não tenta aproximação com ela, mas, já no vagão do trem, de volta para casa, ela se aproxima. Seu nome é Clementine (Kate Winslet) e ela é, de fato, uma pessoa tão incomum quanto a cor de seu cabelo. Estava tudo muito bem, não fosse essa a metade do filme, nos primeiros minutos. Um fato interessante foi esse tempo ter sido usado para explicar os personagens, mas não necessariamente para o desenvolvimento da trama. Isso criou expectativas para os conflitos vindouros e aproximou o espectador do personagem.

Entretanto, a julgar pelos primeiros quinze minutos do filme, talvez alguns críticos apressados insinuariam, precoce e erroneamente, que esse seria mais um daqueles romances pseudo-culties  e hipsters que se desenvolvem tão sem nexo que chegam a parecer profundos. Entretanto, quando o roteiro é recortado daquele ponto em que está tudo bem na vida de Joel para outro completamente oposto, temos a primeira impressão de que esse não é um filme qualquer. Pois bem, após nos situarmos que o filme não se passa em ordem cronológica, entendemos que Joel amarga uma separação repentina de Clem. Ao tentar falar com ela pessoalmente, ela nem ao menos o reconhece, além de já estar com outro rapaz. Ao mostrar sua confusão e indignação sobre o caso a um casal de amigos, Joel descobre (através do amigo) que Clem fez uma espécie de lobotomia. Uma empresa, chamada Lacuna Inc., executa o trabalho de apagar memórias das pessoas através de um processo de dano cerebral. E Clem apagou Joel. Mais indignado ainda, ele pede para fazer o mesmo processo. Nesse ponto, a trama, que não já não era tão simples, consegue ficar ainda mais complexa.

Durante o processo, de alguma maneira, Joel decide, dentro de sua cabeça, desistir do processo, e daí em diante a história se passa em duas camadas diferentes: o mundo físico e as memórias de Joel. Ele percebe, com muita dor, que o processo de “deletar” alguém da sua memória é temerosamente horrível, além disso, (muito provavelmente) pela influencia externa que ele recebe enquanto desacordado (estímulos inconscientes ao ouvir Patrick (Elijah Wood) falar sobre Clem) Joel percebe que ela está sendo enganada, e que Patrick está usurpando o lugar que era dele, pois ele roubou o material que Joel teve de descartar (fotos, presentes, páginas de um diário) para se submeter ao experimento de apagar a memória.

Daí em diante começa uma corrida de memória em memória, em que Joel tenta preservar Clem a todo custo. Nesses momentos de correria, é importante ressaltar que o filme volta para ordem cronológica, mas de maneira regressiva (veja bem, não bastasse um corte tremendo na sequência, a sequência é refeita ao contrário). Então, para quem gosta de ficar mapeando os acontecimentos, um detalhe muito importante é prestar atenção às cores de cabelo que Clementine está usando. De acordo com que os tons variam, é possível se localizar no tempo. Além disso, as mudanças deixam a personagem com um visual muito interessante, obviamente.

Mas, acima de todos estes pontos, o que o filme traz de mais interessante é sua visão temporal dentro da perspectiva memorial de Joel. Em um dado momento, Howard (Tom Wilkinson), que é o médico responsável pela situação, constata que eles estão apagando memórias que Joel está tendo repetidamente. Durante o próprio tratamento, o rapaz começa a lembrar do período em que começava o tratamento. É no meio dessa confusão que ele percebe que tem algum domínio sobre suas memórias. De acordo com que a história evolui, a relação de Joel com suas memórias vai deixando de ser passiva (uma mera repetição do que já foi) e passando para uma forma mais ativa (que vai desde a antecipação de diálogos, até a elaboração de subdiálogos com Clementine e outros personagens. Diálogos comentando os fatos já acontecidos, ou metalinguísticos, explicando a si próprios). E é justamente através desse domínio de “onde e quando estar”,  dentro da memória, que são criadas algumas cenas realmente interessantes e analisáveis, sobre o viés de estudos psicanalíticos. A primeira, em que Joel volta para suas memórias de infância, e Clem o acompanha substituindo uma pessoa da qual, tudo indica, que o protagonista não se lembrava direito. Segundo Freud (Psicopatologias da Vida Cotidiana, 1901), em seu capítulo sobre as memórias da infância, é normal para adultos, ao se lembrarem da infância, recordarem de algumas pessoas de forma defeituosa. Isto é, substituindo algumas pessoas por outras, de acordo com suas experiências pessoais. Interessante notar também, nessa cena, como Joel acaba interagindo mais do que deveria com sua memória infantil, assumindo o comportamento de criança. Clem tenta trazer o adulto de volta explorando as memórias sexuais dele. Outra memória infantil ocorre quando Clem sugere que Joel escape para as humilhações pelas quais ele passou, pois as memórias humilhantes são lembradas com mais dificuldade, ou mesmo extirpadas pelo inconsciente, sendo mais difíceis de serem encontradas/lembradas. E assim ele o faz. Primeiro, numa embaraçosa cena em que a (provavelmente) mãe o flagra se masturbando, e depois, num episódio em que foi influenciado a matar um pássaro à marteladas quando ainda muito jovem.

O processo não para, e assim como todas as outras memórias essas também são apagadas, levando Joel à sua primeira memória com Clementine (nunca se esqueça que essa parte do filme é regressiva). O dia em que a conheceu. Essa parte tem um nível maior de melancolia do que o filme reserva em seu todo porque Joel entra nessa cena desesperado e, com o andamento da cena, e sai conformado com o sumiço repentino de Clem da sua vida. Vale questionar, sobre a vida de Joel, nesse momento se ele quer lembrar-se do que viveu, ou se ele quer viver o que lembrou.

Por fim, o filme faz com que o subconsciente prevaleça sobre todas as coisas. Sendo a última memória a ser apaga uma fala da Clem da memória que diz “meet me in Montauk”. No dia seguinte, Joel acorda um pouco esquisito, diferente do normal. Na estação de trem para ir ao trabalho, ele muda completamente de rumo e vai para uma praia deserta (Montauk), sem saber muito bem o porquê. Joel (Jim Carrey) não é impulsivo, diz ele. Mesmo assim toma essa atitude inesperada. Nesse local tão diferente, ele avista um ser tão incomum quanto o lugar em si. Uma mulher de cabelo azul.

O final do filme é surpreendente, pois é nele que se resolve a trama que acontece na segunda camada do filme, a camada do mundo real, e não as memórias de Joel. O homem responsável por fazer a lobotomia em Joel é Stan (Mark Ruffalo) que está de caso com a secretária do responsável pelos experimentos, doutor Howard Mierzwiak (citado acima), Mary (Kirsten Dunst). Entretanto, Mary demonstra uma admiração incomum por Howard. Toda essa devoção pelo trabalho do médico, na verdade, não passa dos resquícios de um amor que ela nutriu por ele, e que apagou de sua memória. Ao fim do filme ela descobre isso, e sabota com todos os processos que já foram feitos na clínica (inclusive os de Joel e Clementine), enviando o material que comprova o processo para todas as pessoas que passaram por ele. Isso gera um último conflito entre os protagonistas que termina de uma forma curiosamente otimista.

Nada no filme é casual ou despropositado. Desde o nome da clínica que apaga as memórias (Lacuna) até as citações que Mary faz (uma delas dando título ao filme, extraído de um poema de Alexander Pope sobre a benção do esquecimento), desde tomadas que parecem ser involuntárias, ou comentários que para determinada cena parecem ser sem sentido, se enlaçam no conjunto com algum outro fato. Definitivamente, e por vários motivos que não apenas a qualidade inquestionável como obra de arte cinematográfica, esse é um daqueles que filmes para se assistir várias vezes durante a vida.


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