Dramas, Dramalhões e Ideologias Distorcidas

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Título: For Colored Girls

Ano: 2005

Diretor: Tyler Perry

For Colored Girs, lançando em 2010, não foi muito bem aceito pela crítica. O filme é baseado numa peça teatral de 1975, escrita por Ntozake Shange. A autora é declaradamente uma ativista racial e feminista, sendo estes os dois pontos mais pertinentes em seus trabalhos. A adaptação da peça para o cinema foi feita inteiramente por Tyler Perry, que já é conhecido por também aderir à crítica ao racismo através de outros filmes (a série Madea iniciada em 2005, por exemplo).

A película se inicia com a apresentação gradativa das personagens, sempre fazendo com que em algum momento elas se cruzem e não, necessariamente, interajam entre si. Talvez este seja um dos pontos em que o filme se apresenta de forma mais inteligente: ao introduzir os personagens às suas respectivas histórias, o diretor não foi exasperado. É claro, isso, certamente, aumentou a duração do filme, de maneira considerável. Mas evitou que houvesse um daqueles famosos buracos de roteiro que muitos filmes fazem ao resumirem exaustivamente a apresentação dos seus personagens. Como não poderia deixar de ser, em se tratando das características da autora da peça que foi adaptada e do diretor do filme, os dramas dos personagens tem um cunho extremamente específico (as dificuldades que a mulher enfrenta na sociedade) e outro um pouco mais secundário (a discriminação racial). Outras duas características que podem ser ressaltadas do roteiro, estas um pouco mais interessantes, são a associação de cada mulher com uma cor de um arco-íris que nasceu no imaginário da autora da peça (e do diretor/roteirista do filme, possivelmente), visto que as cores branca, marrom e laranja não figuram no espectro de luz que se forma quando os raios de sol encontram as gotas de água da chuva. Mesmo com o equívoco, a associação cria um ambiente visual interessante para cada personagem, além de caracterizá-las mais facilmente. O segundo ponto é que, para cada uma das mulheres, foi legada uma coletânea de poemas, com uma linguagem bem particular (o Black English), que são recitados à medida que o roteiro evolui. Isso cria um ambiente poético curioso no filme.

Após apresentadas todas as nove mulheres do roteiro, é o momento de começar a desenvolver seus “demônios”. A jovem Nyla (Tessa Thompson) “repentinamente” engravida e passa por uma experiência terrível de aborto. Sua estória está ligada diretamente com sua professora de dança, Yasmine (Anika Noni Rose), que foi estuprada dentro de seu próprio apartamento, e com a assistente social Kelly Watkins (Kerry Washington), que não consegue engravidar. A correlação entre Nyla e Yasmine não foi muito bem explorada pela distância entre seus conflitos, bem como a relação entre a adolescente e Kelly, pois, embora seus conflitos dessem um perfeito paradoxo (um aborto planejado e uma mulher que não consegue engravidar) as personagens não têm vínculos que firmem uma proximidade significativa. Inclusive, o conflito de Yasmine seria extremamente potencializado se posto ao lado do drama familiar pelo qual Alice, a mãe, (Whoopi Goldberg) e Tangie, a filha, irmã de Nyla, (Thandie Newton), que foram estupradas pelo próprio pai e avô, respectivamente. Tangie passou pela mesma experiência abortiva traumática que sua irmã, que é mais noiva, e mesmo assim incitou-a a fazê-lo também, alimentada por um sentimento de rejeição. Estas três personagens (Nyla, Tangie e Alice) formam, juntas, um dos núcleos mais interessantes do filme.

Em outro núcleo, um pouco mais separadamente, Juanita Sims (Loretta Devine), uma enfermeira que mantém uma ONG que instrui garotas a usarem preservativo para evitar DSTs e a gravidez precoce (este último, um problema que Nyla não soube evitar, novamente uma pequena correlação mal aproveitada), encontra com Jo (Janet Jackson), uma mulher proporcionalmente bem sucedida e rabugenta, casada, sem conhecimento disto, com um homossexual (que por fim acaba transmitindo AIDS para ela).

Todos esses dramas se encontram num momento específico. Quando Crystal (Kimberly Elise) perdeu seus dois filhos, tragicamente assassinados pelo pai, que estava bêbado. Crystal trabalhava para Jo, e era, aparentemente, visitada com certa frequência por Kelly, que recebia denúncias da dona do apartamento em que Crystal mora, Gilda (Phylicia Rashad), sobre maus tratos que o pai dos filhos de Crystal fazia às crianças.

Após esse último lamentável acontecimento, Crystal cai em depressão, e existe um esforço coletivo das mulheres que estão mais próximas (Gilda e Tangie, porque moram no mesmo prédio, Jo, por ser sua patroa e Kelly, por ter acompanhado o caso) em ajudá-la a superar a própria perda. É claro que a maioria dessas estórias, ao final, não se resolvem, por não terem resolução mesmo. Mostrando que certas vezes as pessoas devem conviver com aquilo que as acontece. Essa, uma mensagem que realmente benéfica, nesse mundo cheio de expectativas absurdas, em que existe um endeusamento da felicidade a ponto de se apagar completamente da história aquilo que foi ruim, que feriu profundamente e com o que não se aprendeu a conviver. Entretanto, talvez o que sobre de todas essas histórias é um mal que assola a sociedade moderna. Um feminismo generalista e doentio. Talvez, em todos os seus cento e trinta e quatro minutos de duração, o único homem que tem uma postura inquestionável é o policial marido de Kelly, que apesar de não poder realizar o sonho de ser pai, não condena sua mulher por ser estéril. Os demais homens são todos enganadores e, como não poderia deixar de ser diferente, para o roteiro, fazem mal às mulheres com quem convivem. Seja o avô de Tangie (pai de Alice) que abusava delas sexualmente, o marido de Jo, que a traia com outros homens (transmitindo o HIV para ela), o namorado de Juanita, que era incapaz de ser fiel, o estuprador de Yasmine, que foi incapaz de respeitá-la enquanto ser humano e, por fim, o pai dos filhos de Crystal, que levou todo tipo de atitude vil ao extremo ao assassinar os próprios filhos. Não se pode negar e esquecer como sofridas foram as vidas de mulheres de diversos lugares do mundo ao longo da história, mas o que nota-se, hoje, nos movimentos de minoria, é que eles não passam mais por um processo de “auto-vitimização”, mas sim por um processo de “inimização” da maioria que os oprimiu outrora. Como já dito, a classe feminina sofreu muito com o machismo, mas disseminar a ideia de que todos os homens do mundo são machistas não contribui para a criação de um mundo melhor, muito pelo contrário. Esse tipo de atitude acaba inibindo o ser humano de manter suas relações de forma natural, fazendo com que sempre existam os famigerados preconceitos. A ideologia que o filme trás, numa reflexão mais profunda e mais lúcida, nos fará ver que o super feminismo, subliminarmente incitado pelo filme, gera uma sociedade muito mais preconceituosa e discriminadora.


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