Era uma Vez… Um Filme Brasilieiro

Era_Uma_Vez(filme)

Filme: Era uma Vez..

Ano: 2009

Direção: Breno Silveira

Era uma vez um conto de fadas num cenário bastante improvável. No Brasil. Mais especificamente no Rio de Janeiro. A história de Dé (Thiago Martins) e Nina (Vitória Frate) não se passa na cidade maravilhosa romantizada pela Bossa Nova, mas na cidade violenta, onde existem duas populações completamente segregadas de todas as formas sociais possíveis: o “morro” e o “asfalto”. É com esse pano de fundo que se desenvolve um conto delirante de amor que em momento algum perde suas características romântico-dramáticas para focalizar uma crítica social sutil e ao mesmo tempo devastadora.

Era uma Vez… (2008), dirigido por Breno Silveira, começa anos antes do seu foco narrativo principal, contando a história trágica de um menino da favela, irmão de Dé, que é assassinado sem motivos pelo personagem que viria a se tornar o chefe do crime no Morro do Cantagalo. Por ter defendido o irmão, Carlão (Rocco Pitanga), outro irmão de Dé, foi jurado de morte. Assim sendo, ele sai da favela e vira morador de rua. Graças a um grande mal entendido, Carlão vai preso. Fim do flashback. Dé agora é adulto e vende cachorro quente num quiosque, na praia, em frente ao apartamento onde Nina mora. E ao ver a moça algumas vezes, o protagonista se apaixona, entretanto, ele sabia que ela era uma “princesa”, morava num “castelo” e a vida não era um conto de fadas. Contudo, num determinado momento, da maneira mais inusitada possível, ele consegue se aproximar dela, e eles começam a namorar. E é justamente nesse ponto em que os mundos sociais colidem. Nina é filha da burguesia, uma socialite de primeira, cujo pai, Evandro (Paulo César Grande), vive organizando festas (nas quais há consumo de drogas e outras práticas condenáveis) para conseguir clientes (o roteiro não dá um padecer claro sobre a profissão dele, mas tudo indica que é advogado). Nina, embora estivesse acostumada a esse ambiente de mentiras confortáveis da classe média, encontra-se saturada, e é justamente esse o ponto divergente entre a realidade dela e a verdade dura da vida na favela onde Dé cresceu.

O pai de Nina descobre o relacionamento dos dois, e no intuito de protegê-la, mesmo a contragosto, aceita o namoro. Justamente nessa parte, os arquétipos sociais ficam bem definidos. Dé, até então, não tinha propósito de emergir de sua condição social para outra. Não tinha formação acadêmica, e, antes de conhecer Nina, aparentemente, não pretendia buscar a vida melhor que isso pode oferecer. Antes de Nina, ele não se sentia impelido a entrar na briga de classes. Mas, na iminência de ficarem juntos até a morte, como ele sustentaria o estilo de vida que ela sempre teve, e que o pai sempre a oferecera? Além disso, é visível a dificuldade que os dois encontram para transgredir os padrões sociais nos quais ambos vivem e agir naturalmente. Eles simplesmente não conseguem interagir com nenhum outro ambiente social sem que suas diferenças se façam embaraçosamente proeminentes. A cena do almoço entre Nina, seu pai e Dé, quando o ex-namorado da protagonista aparece, é um exemplo claro disso.

Mas, se esse relacionamento causa tanta estranheza, por que eles continuam juntos? Pois bem, quando Dé e Nina estão juntos, o conto de fadas começa. Eles são transportados para um mundo paralelo e surreal. Para tal existe sempre uma trilha sonora inebriante, e isso cria um efeito áudio visual que faz com que o espectador acompanhe as personagens a esse mundo, e por instantes, esqueça-se de tudo que aconteceu até ali. Porém, o filme é um drama e ele segue seu curso agonizante para um final trágico. Carlão, irmão de Dé, foge da cadeia. Invade e toma o morro. Transforma-se no líder da comunidade. Contudo, os meios de que dispôs para fazer tudo isso voltaram a ele para reivindicar sua respectiva parte. Estes meios são: o crime organizado e a polícia corrupta. Nessa parte, sutilmente o filme mostra como o sistema age fomentando a necessidade que ele próprio tem. A polícia corrupta combate e financia o crime, ao mesmo tempo.

Como já dito, o filme culmina num final trágico, estilo Romeu e Julieta, e talvez o único ponto desgastante (e este é um ponto muito importante) seja a incapacidade dos personagens de discutirem, de forma mais competente, metalinguisticamente falando, o meio social em que vivem. Talvez isso seja o reflexo de uma direção um pouco ingênua (este foi o segundo longa de Breno Silveira), ou mesmo falhas na atuação. Mas em geral, esse é um filme que fala um pouco mais do que está no script.


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