Minúcias Moçambicanas

ImageLivro: O Outro Pé da Sereia

Autor: Mia Couto

Editora: Cia das Letras

Ano: 2006

Em primeiro lugar, O Outro Pé da Sereia é uma joia da, infelizmente, não muito divulgada literatura luso-africana. Seu autor, Mia Couto (que acabara de ganhar o prêmio de literatura Camões 2013) é possuidor de um estilo único e de uma narrativa muito interessante. Como é chover no molhado dizer que a “grande mídia” não divulga esse tipo de produto cultural, faço aqui a minha parte, mesmo pertencendo à pequena mídia.

O enredo do livro está baseado em dois focos narrativos: um no presente, no ano de 2002, o outro no passado, entre os anos de 1560 e 1561. O primeiro foco narrativo começa localizado em um lugar chamado Antigamente, onde vivem Mwadia Malunga e Zero Madzero. O lugarejo onde moram é afastado do mundo, Zero é quem decidiu que morariam lá, pois ele queria anular-se da vida, assim como próprio nome já diz (Zero: um número de valor nulo). Após um acidente aéreo, Zero encontra as ferragens da aeronave caída (que ele acredita ser uma estrela) e resolve enterrar aquilo às margens de um rio sagrado. Lá ele e a mulher encontram uma santa que tem apenas um pé, junto de um baú com anotações de séculos atrás. Com toda a espiritualidade, natural do povo africano, Zero resolve se aconselhar com o nyanga (conselheiro espiritual) que vive naquela região: o adivinho Lázaro Vivo (um produto da África semi globalizada, um adivinho com telefone móvel e interessado em fazer comerciais na televisão). O nome dele é claramente um paradoxo ao personagem bíblico que esteve morto por quatro dias e foi ressuscitado por Jesus Cristo. O nyanga os aconselha a guardar a imagem dentro de uma igreja em Vila Longe, cidade natal de Mwadia. Zero impele à esposa essa missão, pois por motivos obscuros não poderia voltar àquele lugar. Assim Mwadia toma seu rumo e, então, é iniciada uma viagem no espaço e no tempo.

O segundo foco narrativo conta a história de dois missionários Jesuítas, os padres Gonçalo da Silveira e Manuel Antunes. A missão deles era converter o rei do império Monomotapa, que ficava onde hoje é Moçambique. Para tal, eles carregavam consigo a imagem de uma santa. Nesse foco narrativo existem duas problemáticas principais, a primeira é a relação do negro Nimi Nsundi com a santa, a qual ele diz ser a Kianda, uma sereia, uma deusa das águas. Isso se passa dentro do navio, a caminho do continente africano, e culmina na execução de Nimi Nsundi após cortar um dos pés da santa, no intento de devolvê-la a forma original de sereia. A segunda problemática se dá quando a embarcação chega ao seu destino, e lá acontece um mal entendido entre os nativos e o chefe da expedição missionária, Gonçalo da Silveira. O que culmina na morte deste último.

Um detalhe técnico a respeito da narrativa de Mia Couto interessante é o abuso do discurso livre indireto. Isso, praticamente, tira a autoria e a condução da história de suas mãos e as coloca nas mãos dos próprios personagens. O resultado para quem lê é uma narrativa mais complexa, embora muito bem delineada. Logicamente o leitor tem (e deve ter mesmo!) todo o direito de fazer suas constatações sobre o que está em andamento na história, mas Mia Couto fez questão de dar uma parte desse juízo para os próprios personagens. E é nesse ritmo que Mia Couto vai mostrando uma áfrica vivida e comentada pelos próprios africanos. Ele mostra um continente que procura viver de presente, pois o passado mostra-se mais lucrativo no abismo do esquecimento. Paradoxalmente a isso, o povo não só mantém as tradições mais antigas, como miscigena o que vem dos oceanos com aquilo que já havia na própria terra. O catolicismo lá, assim como acontece na Bahia, é recheado de rituais misturados entre as religiões nativas e o que os portugueses trouxeram durante a colonização.

E tudo isso, dentro do livro, se traduz na palavra viagem. A viagem que acontece dentro dos personagens. Mwadia (que num dialeto moçambicano significa canoa) é quem dá o pontapé inicial dessa viagem quando tem de ligar Antigamente, um lugar esquecido pelo próprio tempo; à Vila Longe, um vilarejo pós-colonial, semi globalizado, e que será sempre longe de todo o mundo, na visão dos próprios habitantes. Quando a personagem volta à casa da mãe, ela encontra respostas sobre o próprio passado e sobre o passado das pessoas que estão diretamente ligadas a sua existência, o que, gradativamente, traz à tona e explica todas as situações conflituosas de cada uma das personagens. Revelando que essa não é apenas uma viagem no espaço, mas também no tempo.

Sobre a mãe de Mwadia, Dona Constança Rodrigues, está talvez um dos atributos mais surpreendentes do livro, embora marginal. A voz feminina se apresenta nela com uma força tremenda. A voz feminina de Mia Couto mostra a mulher africana como uma mulher que era cativa duas vezes, uma por ser escrava, outra por mulher. Mas acima de tudo, essa voz feminina mostra os dribles dados na cultura machista com revelações de deixar qualquer um boquiaberto, como, por exemplo, a revelação do envolvimento em relações homossexuais para obter prazer (pois com os homens era impossível), além dos vários dribles para fugir da força bruta, sem jamais perder a delicadeza e a feminilidade.

Prosseguindo com o enredo, durante o tempo de estadia de Mwadia em Vila Longe, aparecem ainda os “americanos” procurando respostas de origens tão longínquas que já se haviam se perdido. Enfim, procurando por um passado que não era o seu. O pesquisador americano, Benjamin Southman, chega a Vila Longe trazendo consigo uma ideia já preconcebida do passado que estaria procurando e fica visivelmente atordoado quando outras variantes começam a aparecer. Um paradigma é quebrado quando se descobre que a história daquele lugar não se restringe a somente brancos contra pretos (esta última, uma terminologia exigida pelos moradores de Vila Longe). Os americanos são uma alusão a todos aqueles que não são africanos de verdade (brancos ou pretos), pois invariavelmente existe uma série de ideias sobre o continente que permanece atrás de uma neblina, e que só se extinguirão com o conhecimento verdadeiro sobre todos os conflitos étnicos e políticos daquele continente. Durante a visita de Benjamin e sua mulher, a brasileira Rosie, Mwadia exerce ainda mais a função metafórica de seu nome quando, em sessões espirituais armadas para extorquir dinheiro dos visitantes, ela entrelaça a história de 1560 com a própria história dos personagens através dos “espíritos” que falam com ela. Esses tais “espíritos”, no fim das contas, e na maioria das vezes, são os próprios papéis achados junto com a santa no rio.

Ao fim dessas, que são as principais tramas da história, e de outras, mais secundárias, o livro se encaminha para a segunda parte da viagem. O retorno. Mwadia, quando se despede da mãe, toma finalmente o choque de realidade que a tira da lembrança de todas essas pessoas, lugares e acontecimento. Ao finalmente aceitar que todos morreram, e que tudo não passara de uma lembrança, ela retorna para o único elemento vivo de toda a história: o rio. O fim da história parece um pouco frustrante, mas na verdade era um final anunciado desde o princípio, nas epígrafes de cada capítulo, por exemplo, pouquíssimas não falavam da morte. Ao longo do livro percebe-se que há quase que uma adoração à morte, mas na verdade é tudo uma tentativa desesperada de dizer que tudo já se fora. Depois de todas as referências históricas, metáforas e mensagens sobre a verdade daquele lugar, O Outro Pé da Sereia começa e termina onde todos nós terminaremos um dia, na morte.

 

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