All Work and no Play Makes Jack a … Mad Man

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Filme: The Shining (O Iluminado)

Diretor: Stanley Kubrick

Roteiro: Stanley Kubrick e Diane Johnson

Ano: 1980

“The Shining” (O Iluminado, em português) é mais uma produção do excêntrico, porém impecável, diretor Stanley Kubrick (mesmo diretor de A Laranja Mecânica). A fama de Kubrick espalhou-se ao longo do tempo por seu ceticismo visceral, perfeccionismo feroz e sua genialidade grotesca. Exemplos de seu tino de querer as coisas perfeitas, é o fato de que todos os seus dirigidos, sem exceção, repetiam as cenas somente umas setenta vezes até a gravação permanente. Em sua defesa, dizia que “os atores precisam de ao menos quarenta repetições para deixar de repetir o texto decorado mecanicamente e começar a agir com mais naturalidade”. Enfim, deixando um pouco de lado toda a esquisitice, e o brilhantismo, inerentes aos diretores clássicos, famosos, e podres de ricos, de Hollywood, adentremos mais profundamente no conteúdo do filme.

O filme foi baseado no romance de horror homônimo de Stephen King. Já vou adiantando, não li o livro (mas pretendo, óbvio), em compensação li um resuminho da internet, pelo menos (óbvio[2]). Sobre o enredo do filme em relação ao livro, existe uma gama de pontos a serem observados. O primeiro, Stephen King, o autor do livro que deu origem ao filme, não gostou do filme. Isso porque, aparentemente, o nosso querido senhor Kubrick havia feito uma releitura bacana do livro, sem pular partes. Daí, creio que ele teve um “insight” e percebeu que a meia hora inicial, que ele já tinha gravado, não seria interessante para o cinema. Resultado: pelas minhas contas, o filme deve começar a partir do primeiro quarto do livro. Isso, para quem não conhece a história do livro, é levemente irrelevante, pois, qualquer um pode assistir ao filme sem ter lido o romance sem medo de não entender alguma das partes por falta de conhecimento prévio. A história do filme por si só se faz entender. Mas, quem leu o livro, sabe que faltam algumas cores de King no quadro que Kubrick pintou. Por exemplo, o protagonista, Jack Torrance (Jack Nicholson) herdou da família um péssimo temperamento e o hábito de ingerir álcool em quantidades excessivas (isso está no livro, e não no filme). Jack era professor, e fora demitido por atentar contra um de seus alunos, por causa do seu temperamento (está no livro, no filme não). Jack, durante um porre, quebrou o braço de Danny, filho de cinco anos de idade, feito pelo autor Danny Lloyd. Este último, outro fato que está no livro, e não no filme. Justamente por causa desse último fato, e de ter perdido o emprego, Jack aceita ser caseiro de um hotel que fica fechado durante o inverno. Depois de desempregado, nosso protagonista pensou que seria um ótimo lugar para se isolar e escrever um livro. Além tentar reestruturar seu casamento, ficando longe do álcool e mais próximo de sua esposa (Wendy, Shelley Duvall) que pensava em se separar depois do acontecimento com o braço de Danny.

Imagino que isso tudo seja o material que Kubrick jogou na lata de lixo. Sendo assim, começamos a ver o filme a partir da entrevista em que Jack é admitido para ser o caseiro do Overlook Hotel. A família se muda para ficar a temporada de inverno lá, e o chefe de cozinha, Dick Halloran (Scatman Crothers) conversa telepaticamente com Danny. Na sequencia, Dick explica para Danny algumas coisas sobre o que ele de “shining”, que nada mais é que esse poder, e Danny, por sua vez, fala um pouco de Tony. “Tony is a little boy who lives inside my mouth”. Este último personagem é o dedo indicador de Danny. Aparentemente um amigo imaginário, porém Tony mostra-se ser, no decorrer do roteiro, um fruto da misteriosa telepatia de Danny, que acaba por protegê-lo.

Algumas curiosidades interessantes sobre Danny Lloyd, o ator, são que ele foi escolhido entre aproximadamente cinco mil crianças para o papel, e que suas cenas foram gravadas rapidamente, apenas num dia ou dois, com o acompanhamento dos pais. Kubrick preocupou-se em poupar o menino das partes mais horripilantes do filme, haja vista que Danny era só uma criança na época.

Os dias passam, Danny começa a ter visões de duas irmãs que foram assassinadas pelo pai anos atrás naquele mesmo lugar. Juntamente com isso, Jack vai mudando seu comportamento, ficando cada vez menos normal em suas ideias. Importante lembrar que: é simplesmente impossível imaginar um ator melhor para Jack que Jack Nicholson. Há vários pontos do script que Jack inventou, como quando ele fica batendo uma bola nas paredes em vez de trabalhar em seu livro, por exemplo. No script estava escrito apenas: “Jack não está trabalhando”. Os scripts também eram lidos poucos minutos antes de rodar as cenas, pois Kubrick os alterava a todo o momento. Esses detalhes curiosos estão todos contidos num documentário feito por Vivian Kubrick (a filha do homem). O documentário é muito interessante, diga-se de passagem.

Os dias seguem, e Jack começa a ver pessoas dentro do hotel também, como Lloyd, o bartender sinistro (Joe Turkel), e todas as pessoas de um baile dos anos vinte. De todos que o Sr. Torrance vê, Delbert Grady (Philip Stone), é o mais importante para o desfecho da trama. Ele é quem incita Jack a matar Wendy e Danny. No livro, aparentemente, uma força sobrenatural possui Jack. Uma curiosidade sobre o tal de Grady é que, no início do filme, o diretor do hotel conta que o assassinado das duas crianças e da esposa, mais o suicídio, foram obras de Charles Grady. E de fato, no banheiro vermelho Jack conversa com Delbert como se ele fosse Chales. No livro, não há essa confusão, existe só Delbert Grady.  Seria isso um erro de Kubrick ou ele fez de propósito? E para que fins?

As últimas cenas do filme são uma perseguição entre Jack, Danny e Wendy onde ele mata Halloran (que havia acabado de entrar no hotel, porque recebera uma mensagem telepática de Danny, a morte dele nem acontece no livro). Em seguida, Jack fica perdido no labirinto de sebe e morre, pois já estava totalmente desgastado e ferido, além da temperatura, a baixo de zero, do lugar. Wendy e Danny fogem, e termina tudo assim, nada muito conclusivo.

Bem, analisemos então o que temos em mãos. O filme por si só, vale o tempo que se perde assistindo-o. Tornou-se um clássico, tanto pelo diretor, quanto pela bilheteira, mas, principalmente, por trazer à vida algumas cenas e falas clássicas do cinema. Se você vier a ler o livro antes de assistir o filme, é bem possível que fique frustrado. Se fizer o contrário, vale a pena dar um Google no livro para ver algumas coisas destoantes e para obter alguns detalhes que Kubrick quis obscurecer.

A discussão, “Literatura x Cinema”, vai muito longe, por isso nem vou discorrer sobre o assunto aqui. Porém, é importante salientar uma grande mudança em relação ao aspecto estético e ideológico da história quando ela passou de romance a roteiro, e, muito logicamente, isso se deve aos dez dedos gordos de Kubrick e sua visão de fundo de garrafa.

Primeiro, o ponto estético. Na estética de Stephen, dá a entender que a família passou por um momento difícil e que queriam se restabelecer. Isso, até Jack perder a cabeça e querer matar todo mundo. Mesmo assim, no livro (que eu li apenas o resumo), Wendy parece ser doce e amável, e Danny parece estar muito ligado ao pai. Já o que vemos no filme, são pessoas muito distantes, diferentes e indiferentes. Danny, por vezes, parece até ser altista. Jack um degenerado. E Wendy parece estar “de boa” com isso.

Sobre o ponto de vista ideológico, o livro é claramente voltado para eventos sobrenaturais. Tudo o que “real” é fruto que acontecimentos sobrenaturais. No filme, Kubrick, deixou com que as pessoas ficassem na dúvida se o que acontecia era sobrenatural ou esquizofrênico (o que é de certa forma, apaixonante num filme. Gosto, pessoalmente, de personagens esquizofrênicos). Mesmo quando não há mais saídas e se é obrigado a acreditar na sobrenaturalidade dos eventos, fica a impressão que eles foram estimulados pelos efeitos psicológicos da clausura.

Enfim, este é um filme de terror clássico, que, controvérsias a parte, ficou mais famoso que a obra homônima na qual foi baseado.


3 comentários sobre “All Work and no Play Makes Jack a … Mad Man

  1. Bem, imagino que a experiência desse filme deve ser semelhante a de ‘Laranja Mecânica’. O Kubrick tem o dom de ser polêmico e inovador ao mesmo tempo. Justamente por colocar face a face Literatura e Cinema, interpretando (ou alterando) o segundo ao seu intelecto. Realmente, preciso vê-lo!

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